Dinâmica de Sala de Aula: Dilemas Práticos e Incidentes Críticos

Se a diversidade é a marca dos novos espaços de ensinoaprendizagem, torna- se necessário pensar a respeito de como conviver com as diferenças. Nesse sentido, não é possível pensar que, tratando a todos do mesmo jeito, ensinando a todos de uma mesma maneira, o professor estará cumprindo o seu papel. Se é o espaço das diferenças (e não do diferente), nossas ações precisam ser igualmente diferenciadas. O que significa diferenciar? Segundo Perrenoud (2000), diferenciar é “fazer com que, quando necessário, cada aluno seja recolocado ou reorientado para uma atividade fecunda para ele”.

 
 
Essa é outra constatação importante: é inconcebível ensinar a mesma coisa, no mesmo momento, com os mesmos métodos, a alunos muito diferentes. A questão, então, qual é? É ensinar o que precisa ser trabalhado, com diversificação de procedimentos . Portanto, não se trata de diversidade de conteúdos, mas de modos de mediar o processo de produção de conhecimento. Nesse sentido, os dispositivos didáticos preparados serão de fundamental importância, mas de nada servirão se não estiverem a serviço da interação, o que significa que, antes de tudo, o aluno precisa se sentir amado e respeitado. Os dispositivos vêm somar o que a relação ou as palavras anunciam: a emergência de sujeitos humanos em uma relação de busca de sentido.

De algum modo, construímos, ao longo de nossa experiência, um conjunto de concepções a respeito do que é ser professor e do que é ensinar. Essas concepções perpassam nossas ações, de modo consciente ou inconsciente, enfim, temos um conjunto de dispositivos tácitos e inarticulados, frutos de um longo processo de socialização profissional, bem como das próprias experiências vivenciadas como aluno.

Desse modo, a sala de aula é um espaço de dilemas para o professor entre: fazer o que sabe e o que necessitaria saber; entre o que diz que faz e o que realmente faz. Não há como cercar esses dilemas, mas à medida que eles se tornam perceptíveis, podem ser enfrentados com criticidade e com busca de alternativas capazes de propiciar novas experiências.
 
 


Por outro lado, a dinâmica da sala de aula é sujeita a emergências, quando se toma o encontro entre pessoas como acontecimento. O que isso significa? Em primeiro lugar, que a situação viva de sala de aula nem sempre se enquadra, obedientemente, em plano preestabelecido. Em segundo lugar, que é da condição humana a necessidade de expressar dúvidas, manifestar sentimentos, ir além do que está sendo dito, quando provocado... Enfim, também é muito difícil (ou mesmo impossível) frear ou fazer estancar o que não podemos alcançar: o que se passa na mente dos alunos quando se encontram à escuta de um professor. Como a sala de aula reúne sujeitos diferentes ela é, seguramente, um espaço de múltiplas interações. Acontece que essas interações nem sempre são harmônicas e tranqüilas, além de sofrerem interrupções, demandam o estabelecimento, não só de novos contratos discursivos, como também de articulação entre esses processos interativos plurais.

   
 
O que faz a diferença é a capacidade de, a cada momento, encontrar condições de superação.

Um exemplo

O educador se vê, a todo momento, na condição de quem precisa tomar decisões rápidas e constantes, no esforço de mediar as práticas discursivas, o que pode conduzir a ações nem sempre exitosas. Essa é a característica desse jogo: saber que o educador pode viver, em alguns momentos, a sua incerteza e, em outros, a sua incompletude.

 
 

Início do ano – aula de Língua Portuguesa preparada sobre Funções da linguagem em textos jornalísticos e publicitários em uma turma de Ensino Médio.

Recursos – retroprojetor, jogo envolvendo diferentes textos.
Na opinião do professor, uma excelente aula: movimentada, consistente e outros bons atributos.

A aula acontece em uma sexta- feira e um dos alunos, (um desses chamados “engraçadinhos”) fazendo uma brincadeira, disse que função boa mesmo era a de uma camisinha que ele acabara de ganhar.

E mostra o objeto. Todos riem. A aula, pelo visto, não está agradando e, em plena sexta- feira...

A professora, sentindo que o aluno queria atrapalhar, resolve “ganhá-lo” para a aula, e pede- lhe a camisinha e, aos demais alunos, outros objetos interessantes que pudessem emprestar. Com os objetos emprestados: a camisinha, uma lata de refrigerante, um desodorante, uma lanterna, um óculos sem lente, simula a seguinte situação de produção: Cada grupo (a professora dividiu a sala em cinco grupos) deveria, a partir das características apresentadas de uma função da linguagem, escolhida por sorteio, produzir um texto sobre o objeto do seu grupo. Os grupos apresentariam e os outros alunos tentariam descobrir, nos textos apresentados, a função da linguagem predominante. A aula não planejada foi um sucesso e o começo da “história de amor” dos alunos com a professora.

Relato da professora Regina Helena Souza Ferreira
 
 

Nos espaços verdadeiros de interação não existe rotina. Tanto alunos como professores vivenciam situações inéditas, que contam, para sua condução, com a capacidade desses mesmos sujeitos em cooperar um com o outro. O professor é, assim, um gestor, não só de situações favoráveis, mas de dilemas, de contradições e de dúvidas que co-existem no campo da produção de conhecimento. A aprendizagem é o resultado desse encontro múltiplo, diferente e irrepetível.
 
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