POR QUE PLANEJAR O ENSINO?



Na escola, atuando como educadores, temos o dever de introduzir os jovens nos diversos aspectos da vida cultural da sociedade em que vivemos e isso requer ação sistemática, organizada e intencional. Tal compromisso nos leva a questões tais como: o que será definido como conteúdo do ensino de Matemática na 5ª série?; que estratégias usar para o trabalho com o tema ‘imigrações’ no ensino de Geografia no 1º ano?; como se diferencia o estudo de seres vivos no Ensino Fundamental daquele que se realiza no Ensino Médio?; qual a contribuição de cada área no estudo interdisciplinar do tema ‘energia e ambiente’ a ser desenvolvido com as turmas de 2º ano?

 
 
As ações do ensino podem ser projetadas, representadas e concebidas antes de sua realização. Através do planejamento, busca-se racionalizar a ação. No cenário educacional, as metas do ensino costumam ser muito generosas, o tempo e os recursos para sua execução, limitados. Nesse sentido, o planejamento busca otimizar a ação docente.

Por outro lado, a prática pedagógica nutre-se de incertezas e imprevisibilidade. Com freqüência, planejamos uma aula e a conduzimos de um modo completamente diferente. Isso acontece porque não é possível prever completamente a reação de nossos alunos às situações de ensino. O problema da imprevisibilidade é ainda maior quando adotamos métodos mais ativos de ensino. Os alunos nos surpreendem com respostas que dão às perguntas que lhes fazemos e, mais ainda, com as perguntas que eles mesmos fazem sobre aquilo que estamos a ensinar. Desse modo, embora possa ser dirigido por idéias e intenções, o resultado do ensino não pode ser previsto ou antecipado antes de sua realização.

 
 
Por isso, deve-se entender o planejamento, segundo MORIN (1996, p. 284), como “estratégia” e não como “programa”. O programa consiste numa cadeia de passos prescritos a serem seguidos rigorosamente e em seqüência; a estratégia, ao contrário, é a arte de trabalhar com a incerteza, compondo cenários de ação que podem se modi?car em função de informações, acontecimentos e imprevistos que sobrevenham no curso das ações, em seu conjunto.

O planejamento do ensino é, então, uma espécie de guia da ação, porquanto projeta valores, idéias motoras, princípios sobre os quais se organiza e concebe a ação docente em sala de aula. Sua função é a de orientar e fundamentar escolhas, mesmo que não seja capaz de antecipar todas as decisões que serão tomadas em sala de aula. Coerentes com essa concepção, é comum que uma mesma aula desenvolvida por um professor seja executada de maneiras completamente diferentes nas várias turmas em que ele leciona, sem que ele tenha se descuidado do planejamento de suas aulas. Podemos concluir dizendo que os planos de ensino são transformados e recriados ao longo de sua implementação.
 
 


Mas, então, por que “gastar tempo” procurando antecipar algo que terá que ser refeito? A esse respeito, o educador espanhol Gimeno Sacristán afirma:

“Os planos, resumidos como esquemas flexíveis para atuar na prática, proporcionam segurança ao professor/a; assim, abordará com mais confiança os aspectos imediatos e imprevisíveis que lhe são apresentados na ação. O plano prévio é o que permite, paradoxalmente, um marco para a improvisação e criatividade do docente. O plano delimita a prática mas oferece um marco de possibilidades abertas. (1998, p.279)”
 
 
 

Por outro lado, o planejamento de ensino nos leva a expor e justificar nossas práticas e, assim, a compreender melhor o que fazemos. Feitos de modo mais formal por alguns (com cadernos e anotações), por outros, de maneira mais esquemática, os planos de ensino potencializam a reflexão sobre a prática docente. Essa explicitação nos ajuda a refletir sobre o trabalho que fazemos e permite ainda compartilhá-lo com outros colegas. Segundo SACRISTÁN (1998, p. 201), “um baixo nível de dedicação a uma atividade previsora e reflexiva como é o planejar significará atividade profissional pouco autônoma ou alto nível de dependência”.

 
 
O planejamento do ensino, como atividade que prepara, organiza e orienta a ação docente, deve levar em consideração os condicionantes da prática, ou seja, as condições objetivas da escola, dos alunos e do currículo. Por exemplo, a existência ou não de laboratórios ou sala ambiente pode inibir ou favorecer determinadas ações; do mesmo modo, o número de alunos em classe, a heterogeidade dos grupos e o número de aulas que se tem para o tratamento de um tópico do currículo são fatores que precisam ser levados em conta para organizar as atividades de ensino na sala de aula.
 

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