Eixo Temático 1 – Geografias do Cotidiano

1 – Apresentação

Desse tema emerge a possibilidade de construir conceitos referentes à interpretação geográfica do cotidiano. Isso significa trabalhar a cidade e o campo como lugares privilegiados de usos do território, nos quais a maneira como a sociedade se relaciona com a natureza indica uma certa qualidade de vida.

Este tema se abre para a pesquisa e observações de como a vida se expressa espacialmente. A melhor maneira de desenvolver esses conhecimentos será pela identificação de quais cotidianos se expressam na vida das cidades e do campo, a partir de recortes espaciais e escalares (local, regional, nacional, global) envolvendo os espaços de vivência dos alunos e as formas de inserção de sua população (inclusão, marginalização, segregação).

 

São os homens e as mulheres que conferem cotidianeidade à cidade e ao campo com sua cultura, seu trabalho e lazer expressos nos arranjos espaciais específicos. Na tentativa de identificação das espacialidades e territorialidades, os alunos estarão descobrindo cotidianos diferentes, convivendo e explicando a qualidade de vida expressa nas possibilidades de exercício de cidadania das diferentes idades e classes sociais que compartilham espaços comuns.

Transformar os cotidianos em objeto de conhecimento significa apostar na interpretação da paisagem urbana e rural. É tematizar aquilo que a cultura e o trabalho conferiram como a identidade de um lugar; o acesso ou não aos serviços de infra-estrutura; às oportunidades de trabalho e lazer; exposição ou não à violência e à discriminação; refletir sobre a cidade real e virtual e sobre as formas de gestão do território.

É um Eixo Temático que precisa ser construído conceitualmente a partir da problematização e compreensão das relações existentes entre economia, política e participação social, com amplas repercussões no espaço geográfico.

2- Como o Eixo Temático deve ser trabalhado

O trabalho pedagógico deve privilegiar a pesquisa sobre as maneiras de viver dos alunos, de suas famílias, de pessoas idosas, marginalizadas e/ou segregadas espacialmente. A partir de observações da realidade socioespacial devem ser problematizados: o atendimento aos direitos de cidadania, relacionados ao atendimento das necessidades básicas como trabalho, alimentação, moradia, lazer, saúde; as principais aspirações das pessoas; e os territórios dos jovens nos espaços religiosos, tribos, salas de cyber café, organizações culturais e ONGs.

Ao trabalhar com os alunos essa compreensão não se pode descuidar do estudo dos territórios da violência que, por sua vez, demarcam cotidianos gerados nas duas velocidades dos fluxos da cidade: a dos incluídos (no sistema) e a dos excluídos (da cidadania). Esses territórios quase sempre revelam o crescimento urbano acelerado, dinâmico e autofágico. Ao problematizar os espaços de sobrevivência e demarcações de poder, os alunos precisarão se ver parte do processo de construção de um espaço de vida, que é produzido de maneira complexa. Nessa produção estão as políticas públicas, as formas de gestão do território, os usos do solo urbano e rural e como as atividades financeiras e produtivas se evidenciam naquilo que podemos considerar como base do desenvolvimento local e regional.

 
 

Para conhecer as atividades produtivas é preciso contar com o conhecimento das condições ambientais locais e como tais atividades impactam positiva e negativamente a qualidade de vida local e regional.

Os alunos de cada série (de 5ª a 8ª) apresentarão suas especificidades ao expressar a compreensão desses cotidianos. Trabalhos de campo e estudos do meio poderão ser realizados com levantamento e mapeamento de dados. Do tratamento dessas informações, podem surgir intercâmbios com moradores, atividades com as representações do poder constituído, sugestões de ações conjuntas para a solução de problemas que dificultam a qualidade de vida e o exercício da cidadania, nesses espaços.

 
 
 

Projetos desenvolvidos sobre a cidade têm mostrando que a apropriação do espaço urbano é um exercício educativo. Um desses projetos é o das cidades educadoras, onde são buscadas interações entre escolas e comunidade por meio das atividades de arte, cultura e participação na gestão do espaço escolar público. Essas propostas geram diversas atividades, tais como: inventariar, selecionar, sistematizar, organizar e difundir o capital cultural expresso nos cotidianos da educação patrimonial; identificação do conhecimento arquivado sobre as paisagens alternativas e residuais; geração de serviços e projetos comunitários que explicitam cotidianos geográficos.

Os estudos que têm a cidade como projeto educativo também propõem reestruturar os usos do território com vistas ao lazer de jovens e crianças, tanto no sentido de enfatizar a educação dos sentidos e as expressões corpórea e musical quanto aprender a valorizar as atividades culturais, desportivas e lúdicas.

Usar o território sempre implica em impactos espaciais de ordem natural, social e econômica. É preciso identificá-los e discutir os limites por eles impostos à qualidade de vida na cidade e no campo, direcionando o olhar crítico dos alunos para a construção de sociedades sustentáveis.

As geografias do cotidiano precisam evidenciar, por meio da construção dos conceitos de espacialidade e territorialidade que cotidianos são esses, sob várias perspectivas. Por um lado, a ampliação da exclusão na territorialidade expressa nos bastidores da cidade pela corrupção do poder constituído; redes ilegais do narcotráfico e jogos clandestinos; exploração de crianças; ação de gangues de roubos e crime. Por outro lado, a espacialidade dos arranjos coletivos voltados para o lazer, como os shoppings centers, os parques, pistas de esportes, jardins, trilhas, quadras polidesportivas, cinemas, teatros, lagoas que garantem (ou não) a inclusão de todas as classes sociais, no espaço das cidades.

Outra possibilidade de abordagem desse Eixo Temático está implícita nos múltiplos olhares sobre a cidade e o campo, seja a segregação espacial, a constituição das "tribos urbanas", galeras, gangues, movimentos hip hop e as novas ruralidades que expressam uma redescoberta do cotidiano do campo. Estes recortes privilegiam a construção dos conceitos de urbano e rural, cidade e as novas ruralidades, cotidiano e espacialidade, qualidade de vida e entretenimento, trabalho, emprego e desemprego, saúde, infra-estrutura urbana comercial e industrial e o setor de serviços.

 
 

O estudo das condições de trabalho existentes e sua importante mediação na relação entre sociedade e natureza com vistas à produção do espaço geográfico, é outro recorte temático favorável à percepção das geografias do cotidiano.

O lugar também se expressa nas geografias do cotidiano, tanto através das subjetividades, quanto da participação cotidiana nos não-lugares representados, por exemplo, pelos shoppings centers, vias de trânsito com fluxo intenso, parques, cachoeiras, clubes e outras áreas de lazer. A cultura jovem, em sua heterogeneidade e protagonismo, é a que mais se identifica com tais arranjos espaciais, integrando-se em sua rotina semanal. Tal sintonia pode e deve ser interpretada num sentido geográfico.

 
 
 


A questão ambiental é parte das geografias do cotidiano e não pode limitar-se ao estudo das catástrofes, embora as enchentes, as desapropriações a as ilhas de calor precisem ser objeto de estudo dos alunos. A erosão dos solos e os processos de desertificação também devem ser estudados, na medida em que a inadequação do uso do território se traduz em prejuízos graves para a natureza. Será também importante estudar como a implantação de uma hidrelétrica provoca alterações no desenvolvimento local e regional, ou a geração de novos empregos e a demanda por educação técnica a partir da instalação de uma indústria. As pessoas precisam se perceber para se posicionarem com vistas à construção de sociedades sustentáveis.

Outros estudos estão relacionados à produção do espaço urbano em diferentes cotidianos: a infra-estrutura urbana e os fluxos propiciados por ela; o trabalho e as expressões de desenvolvimento expressos na economia formal e informal; a espacialidade do lazer e do turismo urbano; as praças e parques públicos; o rio que corta a cidade e sua territorialização; as festas tradicionais das comunidades e sua expressão cultural. Para destacar o movimento que produz a metrópole e as cidades globais será interessante discutir o conceito de temporalidade e modernidade explicitado na cidade virtual em sua espacialidade de produção - as mídias, os simulacros, as vias de circulação, os tempos diferenciados, o delivery, a vida 24 horas.

 
 

Eixo Temático I - Geografias do Cotidiano

• Os tópicos obrigatórios são numerados em algarismos arábicos.
• Os tópicos complementares são numerados em algarismos romanos e o texto está em itálico.

Tema 1 – Cotidiano de Convivência, Trabalho e Lazer

Tópicos

Habilidades básicas

1. Território e Territorialidade

• Reconhecer em imagens/fotos de tempos diferentes as mudanças ocorridas na produção do espaço urbano e rural, sabendo explicar a sua temporalidade;
• Empreender no cotidiano as noções de território e territorialidade, aplicando-as nas situações que produzem a vida na cidade e no campo.

 

2. Paisagens do Cotidiano

• Interpretar as paisagens urbanas e rurais em suas oportunidades de trabalho e lazer valendo-se de imagens/fotos de tempos diferentes;
• Reconhecer nos cotidianos da paisagem urbana e rural o que a cultura e o trabalho conferiram como identidade de um lugar.

 

3. Cidadania e Direitos Sociais

• Reconhecer na paisagem urbana e rural, a cultura, o trabalho e o lazer como identidade de um lugar e direitos à cidadania;
• Ler e interpretar em mapas, dados e tabelas os avanços dos direitos sociais no Brasil e no mundo.

 

4. Lazer

• Explicar o lazer na sociedade atual tendo como referência a mundialização de fenômenos econômicos, tecnológicos e culturais;
• Identificar no cotidiano urbano os elementos que representam a espacialidade e territorialidade do lazer.

 

5. Segregação Espacial

• Identificar as questões que envolvem a segregação espacial em imagens, textos e na observação da vida cotidiana;
• Explicar os tipos de relações sociais existentes no território relacionando-os com os lugares, suas estratégias de segregação e exclusão das populações marginalizadas;
• Reconhecer a cidade na sua territorialidade de bandos, gangues, identificando as demarcações no seu espaço de vivência e relacionando-os com a singularidade ou generalidade de outros cotidianos.

6. Redes e Circulação

 

• Reconhecer as redes que possibilitam a circulação de informações, mercadorias e pessoas;
• Interpretar gráficos e tabelas que expressem o movimento e a circulação das pessoas, produtos e idéias no cotidiano urbano.

 

I. Região e Regionalização

- Reconhecer nas paisagens patrimoniais urbanas, as temporalidades nelas implícitas e as práticas de preservação propostas pelas políticas públicas.
- Aplicar a escala geográfica em estudos que buscam compreender as paisagens urbanas com vistas a destacar a freqüência e a distribuição e concentração dos sem teto, sem trabalho, sem educação, sem saúde, sem terra comparando-os com os direitos de cidadania.
- Compreender as políticas públicas urbanas identificando e analisando as situações delas decorrentes em diferentes cidades e países.

 

II. Espaços de Convivência, de Trabalho, de Lazer: cidade e urbanidade

• Interpretar gráficos, fotos e tabelas que expressem fenômenos urbanos da urbanidade e entretenimento;
• Identificar, conhecer, avaliar os laços de identidade da cidade com o cidadão, as manifestações populares e o trabalho, assim como a falta de trabalho e a repressão às manifestações, em textos e fotos;
• Comparar as marcas da mudança na produção do espaço urbano através da análise de fotos de ruas, avenidas, praças que revelam a urbanidade.

 

III. Patrimônio e Ambiente

• Identificar no espaço urbano as construções patrimoniais, explicando seu valor cultural associado à preservação;
• Analisar os impactos ambientais produzidos pela relação sociedade e natureza nos cotidianos urbanos;
• Analisar os impactos advindos das transformações no uso do patrimônio, propondo soluções para os problemas ambientais urbanos.

 

IV. Espacialidade

• Comparar fotos de ruas, avenidas e praças, identificando as permanências e mudanças expressas na espacialidade;
• Identificar os arranjos espaciais que se manifestam em cotidianos urbanos sabendo categorizá-los e interpretá-los;
• Relacionar o crescimento da economia informal com o surgimento de novas espacialidades e territorialidades.

 

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