CRITÉRIOS PARA A SELEÇÃO DOS CONTEÚDOS

Do mesmo modo que existem várias razões que justificam a presença da geografia nos currículos escolares do ensino fundamental, são muitas as formas de definir os critérios para a seleção dos conteúdos. O importante é que esses critérios não são excludentes, ou seja, uma boa seleção de conteúdos deve levar em conta todos eles: o científico, tecnológico, cultural e pedagógico.

O critério científico possibilita compreender a realidade do mundo em que vivemos, numa pluralidade de abordagens para o entendimento do espaço geográfico. Essas abordagens são a crítica, que se refere à compreensão e explicação do processo de produção do espaço geográfico sem se restringir às determinações econômicas; a cultural ,que incorpora a explicação perceptiva, subjetiva e contextualizada da diversidade cultural dos espaços geográficos, identificados na tradição, etnia, religião, linguagem, costumes, crenças, gênero e valores, e a socioambiental, que problematiza as graves questões decorrentes das relações contraditórias e conflituosas entre sociedade e natureza, sociedade e espaço, do presente.

 
 
As três abordagens, crítica, cultural e socioambiental, são transversalizadas pela dimensão formadora propiciadas pela educação ambiental e patrimonial que se contrapõem à tendência globalizadora. Esta incita o consumismo, a uniformização de hábitos e costumes, invalida referências valorativas sobre as quais os indivíduos e grupos constroem a sua identidade. A rede da educação patrimonial e ambiental leva à construção de sociedades sustentáveis. Portanto, é responsabilidade dos educadores fomentar a construção de novos conhecimentos, mentalidades e comportamentos comprometidos com esse objetivo.

 
 
É preciso derrubar as rígidas fron teiras entre as diferentes abordagens geográficas, e entre elas e as disciplinas da área de ciências humanas, para que possamos, com múltiplos olhares, estudar, desvendar e explicar as complexas realidades socioespaciais plurais do mundo contemporâneo, compartilhando das reflexões do geógrafo Milton Santos: “... partir da consciência da época em que vivemos. Isto significa saber o que o mundo é e como ele se define e funciona, de modo a reconhecer o lugar de cada país no conjunto do planeta e o de cada pessoa no conjunto da sociedade humana. É desse modo que se podem formar cidadãos conscientes, capazes de atuar no presente e de ajudar a construir o futuro”.

 
 
A seleção de conteúdos sob a ótica do critério tecnológico coloca um duplo desafio para a prática educativa. De um lado, é preciso levar em conta os novos signos que a modernização econômica impõe ao espaço geográfico: a tecnociência com suas constantes inovações e mudanças no padrão de consumo; o avanço das telecomunicações, transportes e serviços; a reorganização das empresas e o fim do emprego. E, de outro lado, o novo paradigma da economia ecológica que, ao buscar compreender as intrincadas relações entre desenvolvimento econômico, eqüidade social e sustentabilidade ambiental, propõe a valoração econômica ambiental como instrumento na gestão de recursos ambientais, inserindo o meio ambiente nas estratégias de desenvolvimento econômico.

 
 
Os seres humanos vêm experienciando, ao longo do tempo histórico, a transformação do mundo natural em um mundo humano, tendo como mediação o trabalho social sustentado por códigos de comunicação impregnados de significados; não só a linguagem, como também o gesto, o vestuário, a conduta pessoal e social, os rituais, a música, a pintura e as edificações. Toda ação humana na natureza resulta em produção material e simbólica: o Espaço Geográfico. O critério cultural se refere, pois, à produção simbólica do mundo vivido em seus diferentes gêneros ou estilos de vida que, por sua vez, conformam paisagens culturais histórica e geograficamente específicas, responsáveis pela diversidade espacial.

 
 
 
No critério pedagógico, os conteúdos escolares são também vistos como conceitos, procedimentos e atitudes recortados da cultura humana e ressignificados sob a ótica do desenvolvimento de competências e da lógica da recursividade. Tais dimensões do conhecimento são estruturadores para se ensinar e aprender Geografia.

Dos conceitos propostos para serem recursivamente trabalhados, destacam-se: o território, o lugar, a paisagem, as redes e a região.

 
 
O território é priorizado porque incorpora a delimitação das relações de poder, o domínio e a apropriação de porções do espaço usado política, econômica e culturalmente. No território estão os homens, grupos sociais, povos. Eles conferem ao espaço, lugar, paisagem ou região uma territorialidade identificada nos processos de formação e transformação dos domínios pela tecnologia que, por sua vez, incorpora redes e técnicas usadas e apropriadas por meio do trabalho, da cultura e outras relações de poder.

 
 
O lugar, no sentido de referência, localização e orientação espacial, que transita entre o local, o regional e o mundial. Nele se reconhecem identidades, pertencimento, culturas, singularidades dos povos e civilizações, características físicas, bem como as formas como essas condições são enfrentadas, transformadas ou determinantes de certo modo de vida nos diferentes lugares do planeta.

 
 
O olhar sobre o visível, que permite ler a paisagem percebida através dos sentidos. A partir dessa percepção da paisagem, inferese acerca da complexidade da vida social contida em seus elementos culturais, políticos, econômicos e ambientais, enfim, naquilo que a anima e lhe dá vida pela força dos símbolos, das imagens e do imaginário;

 
 
A rede e região são também priorizadas porque são unidades espaciais dinâmicas que dão visibilidade aos fenômenos socioespaciais contextualizados no Espaço Geográfico. A rede, na perspectiva dos fluxos e deslocamentos de idéias, pessoas e produtos, modificam, transgridem, ampliam e modernizam os lugares, territórios, paisagens e regiões, numa velocidade cada vez mais intensa de redes legais e redes ilegais. E, a região, por facilitar a análise da realidade em recortes sucessivos de fenômenos socioespaciais, econômicos, políticos, culturais e ecológicos.

 
 
O trabalho pedagógico com conceitos requer a explicação de alguns princípios e orientações, tais como:

1 - a extensão, que se relaciona à escala geográfica, possibilitando distribuição dos fenômenos socio-espaciais e à escala cartográfica, um instrumento de representação e análise do espaço que perpassa todo o trabalho pedagógico;
2 - a temporalidade, que apresenta situações de intensidade e ritmo, deve ser analisada por meio da produção cultural e dos procedimentos matemáticos;
3 - a seletividade dos fenômenos recortados da realidade em função da contextualização sociocultural e de sua atratividade.

 
 
Os conteúdos procedimentais são instrumentos que deverão dotar o aluno de ferramentas de interpretação, análise e representação do espaço que os rodeia, dos territórios, das redes, das regiões. Destacamos entre eles os relacionados com:

- a interpretação e representação do espaço;
- o tratamento da informação;
- a escala temporal, tempo geológico e tempo histórico.

 
 

As atitudes referem-se às manifestações dos valores em construção pelos alunos. Cria, também, situações educativas para o desenvolvimento de uma atitude problematizadora no educando e outras dimensões do ser cidadão em formação, tais como:

• Valorização de políticas públicas democratizadoras de acesso à cidadania e à qualidade de vida.
• Respeito à pluralidade cultural expressa nas manifestações de vestir, falar, festejar.
• Consumo com responsabilidade dos recursos naturais não-renováveis, evitando o desperdício dos bens pessoais e coletivos;
• Postura crítica diante do modelo mundial de degradação ambiental.

 
 
 
Em suma, o critério pedagógico imprime flexibilidade aos conteúdos / recortes selecionados, uma vez que privilegia o exercício de uma atitude problematizadora no educando e requer um percurso metodológico que inclui o tratamento da informação e habilidades relacionadas ao desenvolvimento tecnológico e científico, como as da pesquisa.

 
 
Tendo como referência os critérios enunciados, propõe-se a organização dos conteúdos em torno de EIXOS TEMÁTICOS e seus desdobramentos em TEMAS, como sinaliza o PCN +. Essa forma de organização em ETs possibilita tratar as questões de modo amplo e significativo, analisando as diversas relações que compõem o universo social dos grupos humanos em diferentes tempos e espaços.
 
 
Desse modo, os EIXOS TEMÁTICOS expressam os fenômenos socioespaciais configurados na espacialidade e territorialidade de um mapa múndi em permanente modificação. Podemos compará-los a quatro grandes galerias. Cada uma delas é cheia de Temas que, por sua vez, expressam o movimento construtivo do Espaço Geográfico. Esses Temas serão selecionados por professores e alunos e transformados em conhecimentos escolares nos cotidianos educativos.

Os Eixos Temáticos são os que se seguem:

Eixo Temático I
– As Geografias do Cotidiano
Eixo Temático II – A Sociodiversidade das Paisagens Brasileiras e suas Manifestações Espaçoculturais
Eixo Temático III – A Globalização e Regionalização no Mundo Contemporâneo
Eixo Temático IV – Meio Ambiente e Cidadania Planetária

Muitas são as vantagens da organização dos conteúdos em EIXOS TEMÁTICOS e seus desdobramentos em Temas, entre as quais destacamos as que seguem.

1. Flexibilidade na escolha dos Eixos Temáticos, uma vez que nenhum deles é específico para uma determinada série;
 
 
2. Flexibilidade na escolha de Temas para qualquer ano de escolaridade.
3. Autonomia dos professores sobre o processo de escolha dos Eixos Temáticos e Temas – serão trabalhados por ano de escolaridade, além da escolha do nível de complexidade, das competências conceituais e procedimentais a serem desenvolvidas, levando em conta, para isso, os conhecimentos prévios da turma e o desenvolvimento cognitivo e afetivo-emocional dos alunos da série a que se destina;
4.Recursividade da abordagem conceitual (lugar, paisagem, território, região, rede, globalização e fronteira) que circula todos os Eixos Temáticos e Temas, possibilitando, assim, a ampliação do potencial de entendimento dos conteúdos, atribuindo-lhes consistência teórica.
 
 
 


Tomando o critério Eixo Temático e Temas como referência, a estrutura pedagógica operacionaliza-se conforme o percurso metodológico que segue.

1 - Seleção do Eixo Temático, que será trabalhado;
2 - Escolha do Tema, contando para isso com a participação efetiva da turma para que ela se perceba protagonista do processo ensino e aprendizagem;
3 - Diagnose dos saberes e fazeres da turma acerca do Tema em questão;
Identificação das idéias-chave, isto é, das noções e conceitos a serem construídos, ampliados e aprofundados;
4 - Construção das competências, isto é, das qualificações humanas amplas e múltiplas que têm caráter dinâmico e mobilizam ações representadas por habilidades. São elas, entre outras: representar, investigar, comunicar, explicar. Algumas competências são comuns a todas as disciplinas e ganham significado em Geografia, tais como:

• dominar diferentes linguagens, dentre elas, a cartográfica;
• compreender processos naturais como terremotos e seca; culturais, como as manifestações de resistência religiosa dos povos muçulmanos ou o racismo;
• acompanhar a evolução dos processos tecnológicos, como os avanços da biotecnologia dos transgênicos;
• diagnosticar problemas no espaço de vivência, elaborando intervenções e proposições solidárias para resolução de problemas;
• saber se informar em fontes diferentes;
• expressar resultados;
• argumentar com consistência teórica;
• apontar contradições;
• identificar incoerências conceituais e manifestar preferências.

As competências (segundo BRASIL. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Ministério de Educação e Cultura. PCN+: Brasília. MEC, 2003) estão categorizadas como:

• Representação e Comunicação (RC);
• Investigação e Compreensão (IC); e
• Contextualização Sociocultural (CSC).

5. Organização de Atividades, utilizando materiais curriculares e estratégias diversas geradores de situações práticas para a construção de competências.

6. Avaliação Formativa (AF), valendo-se de atividades que envolvam situações práticas articuladas com o desenvolvimento das competências.

 

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