EIXO TEMÁTICO I: ESPORTE

Manifestação específica da cultura de movimento que, na sociedade contemporânea, vem se constituindo como principal referência, seja como prática corporal propriamente dita, seja pelos princípios e valores que expressa e ajuda a consolidar. É uma instituição social que já foi considerada o maior fenômeno cultural do século XX. Diante das múltiplas possibilidades de sua difusão, espetacularização e consumo simbólico em âmbito global – em decorrência do advento das novas tecnologias a serviço dos meios de comunicação de massa –, tende a tornar-se ainda mais importante (PIRES; NEVES, 2002).

O esporte entendido como campo do conhecimento da Educação Física, ainda segundo esses autores,

 
 

parece não ter sido apenas adotado como seu principal objeto de estudo e intervenção prática, como chega até mesmo a confundir-se com ele, num processo referido como esportivização da Educação Física. Desse modo, o esporte parece ter-se tornado o conteúdo determinante das aulas tanto no Ensino Fundamental como no Ensino Médio. Isso, porém, não tem acontecido sem que críticas sejam feitas às conseqüências que essa transposição dos sentidos e códigos do esporte de rendimento para o âmbito escolar podem acarretar: tendência ao selecionamento/exclusão, competitivismo exacerbado, especialização e instrumentalização precoces, entre outras (PIRES; NEVES, 2002, p.54).

Criticar o esporte não significa desvalorizar a sua aprendizagem ou, mesmo, desejar sua total desportivização, mas, sim, contextualizar a vivência de sua prática nas aulas, pois esta não se restringe ao domínio de suas técnicas.

Desse modo, a vivência dessas práticas corporais de movimento na escola encerra dupla alternativa: podemos continuar reforçando maneiras excludentes e preconceituosas de vivenciá-las ou apostar no potencial educativo e, particularmente, do tempo e do espaço das aulas de Educação Física como lugar de produção cultural capaz de sair de seus muros, na perspectiva da transformação dos valores sociais vigentes. Ou, ainda, como nos diz Vago (1999), estabelecer uma "tensão permanente" entre os valores produzidos a partir da escola e aqueles não escolares.

 
 

Para ser entendido como prática educativa escolar, o esporte precisa, portanto, ser situado histórica e socialmente e vivenciado criticamente a partir da compreensão de seus fundamentos e da ressignificação de seus sentidos e significados. Além disso, é preciso conhecer os benefícios e riscos das diferentes práticas esportivas, bem como analisar os valores que as orientam.

É importante também, que a escola discuta o esporte como um direito garantido na Constituição brasileira de 1988, no seu art. 217. Este artigo prevê que os recursos públicos sejam prioritariamente destinados à promoção do esporte educacional.

Lei n. 9.615/98

   
 

Ao assumir o esporte como uma prática educativa, consideramos que algumas ações metodológicas presentes em nossas aulas precisam ser problematizadas, objetivando ressignificá-las. Vejamos, por exemplo, o processo de escolha dos times, conhecido como "par ou ímpar". Ao escolher os melhores jogadores para selecionar os colegas que irão compor os respectivos times, exclui-se a participação dos "menos habilidosos", privilegiando a formação de "panelinhas". E, ainda, se a regra for "o time que vence permanece em quadra", aqueles menos habilidosos vão jogar menos tempo, sendo-lhes negada a possibilidade de aquisição das habilidades necessárias ao jogo.

Observe-se que todos os valores, presentes no esporte moderno e na sociedade, estão também presentes nessa prática. Resta saber: De que outra maneira poderíamos, então, formar as equipes para jogar em nossas aulas? Discutir essa questão com os alunos, construindo com eles outras formas para solucionar o problema consistirá numa experiência rica, além de constituir uma possibilidade para ampliar a compreensão do significado de cidadania, democracia, ética, respeito às diferenças, dentre outros valores importantes em nossa sociedade.

Na perspectiva do ensino-aprendizagem, poderíamos perguntar ainda: Como determinada modalidade esportiva poderá ser vivenciada e estudada? Que habilidades ela exige, e que competências desenvolve? Tomemos o handebol como exemplo. Além de outros saberes, é imprescindível conhecer e aprender seus fundamentos: passar, lançar, arremessar, driblar, fintar, receber. A vivência e o domínio desses fundamentos irão contribuir para que os alunos participem dos jogos com mais confiança em si mesmos e com maior motivação. Na execução desses fundamentos, devemos levar em consideração o fato de que existem maneiras diferenciadas de fazê-lo, dependendo do objetivo que se quer alcançar. A competição exige técnica apurada: quanto mais eficiente o gesto, mais eficaz ele será. O jogo lúdico, por sua vez, não tem essa mesma exigência, pois, neste caso, o processo é mais significativo do que o próprio resultado. O importante é que os alunos possam jogar com prazer e criatividade.

Mas, para viabilizar o jogo, é imprescindível, também, que os alunos conheçam suas regras e significados. Dependendo de quem joga, das condições e dos objetivos do jogo, o grupo tem autonomia para transformar suas regras, acrescentando ou excluindo de acordo com a necessidade. A própria história das modalidades esportivas nos mostra como isso vem ocorrendo. O exemplo mais recente talvez seja o da televisão, que, na busca de adequação do seu tempo de apresentação, tem provocado mudanças nas regras de quase todos os esportes.

 
 

Outro fato muito comum em nossas aulas diz respeito à participação do aluno no jogo. Nem sempre todos eles querem jogar. Isso não significa que, de uma forma ou de outra, eles não possam participar da aula. Cabe ao professor motivá-los. Uma boa estratégia é convidá-los para observar o jogo, extraindo fatos que poderão ser analisados pelo grupo num momento posterior.

Quem são os colegas que mais recebem a bola? Por que isso acontece? Quem nunca recebe? Por quê? Em que posição cada jogador se encontra? Como ele se movimenta em quadra para passar/receber a bola? Como é possível perceber que ele está atento ao jogo? Essas e outras perguntas poderão contribuir para análises sobre a exclusão no esporte. Como interferir para alterar essa realidade? O grupo poderá propor mudanças no sentido de tornar mais significativa a prática desenvolvida.

   
 

A vivência do jogo permitirá, ainda, que o aluno entenda as alterações provocadas em seu organismo durante a atividade física. Tais alterações podem ter repercussão de curto, médio e longo prazo na vida de cada um deles. Saber, por exemplo, o que é um exercício aeróbico e qual a sua importância na vida dos sujeitos constituem conhecimentos possíveis de ser discutidos também com a prática do esporte. Em relação à freqüência cardíaca, por exemplo, os alunos poderão aprender a medi-la e a analisá-la.
Para isso, deverão anotar os batimentos cardíacos em repouso, no intervalo e no final de diferentes jogos.

 
 

Após algumas aulas, essas observações podem instigar as seguintes perguntas: Por que determinado aluno tem 60 batimentos por minuto (bpm) em repouso e outro 80 bpm? O que isso quer dizer? Em termos do sistema cardiovascular, o que diferencia uma pessoa com bom condicionamento físico de outra que é sedentária? Quais exercícios melhoram a capacidade cardiovascular? Por que, no jogo de basquete, a freqüência cardíaca dos alunos fica mais elevada do que no voleibol? Ou, ainda, em situações de jogo, por que determinadas pessoas transpiram muito? Algum aluno teve necessidade de beber água? Qual é a relação entre transpiração, hidratação, tipo de vestuário e temperatura corporal? São fatos corriqueiros que acontecem diariamente em nossas aulas e que precisam ser problematizados pelos professores. O importante é vincular esses conhecimentos à vivência dos alunos.

 
 
A partir do diálogo estabelecido com os professores neste PDP, foram definidos os Conteúdos Básicos Comuns (CBC) relativos a este eixo temático, seus respectivos sub-temas/tópicos, bem como as habilidades básicas que devem ser desenvolvidas. O CBC está destacado em negrito. Em itálico, estão as sugestões de conteúdos complementares, aqueles que os professores considerarem importantes de ministrar, a partir da análise das características da comunidade local e regional, das condições oferecidas pela escola, da carga horária e, principalmente, dos interesses dos alunos. Ao defini-los, será preciso indicar o nível de ensino, além de elencar as habilidades específicas possíveis de desenvolver em cada prática corporal.

EIXO TEMÁTICO I: ESPORTE

• Os tópicos obrigatórios são numerados em algarismos arábicos.
• Os tópicos complementares são numerados em algarismos romanos e o texto está em itálico.

TEMAS (modalidades): handebol; basquete, voleibol, futebol/ futsal, atletismo (corridas e saltos), peteca

 
 

TÓPICOS

HABILIDADES

1. História

- Conhecer a história de cada modalidade esportiva

2. Elementos Técnicos Básicos

- Identificar os elementos técnicos básicos de cada modalidade
- Executar os elementos técnicos básicos de cada modalidade
- Aplicar os elementos técnicos básicos de cada modalidade em situações de jogo

3. Táticas das modalidades esportivas

- Conhecer as táticas de cada modalidade.
- Aplicar táticas em situações de jogo

4. Regras

- Conhecer os objetivos das regras de cada modalidade
- Modificar as regras de acordo com as necessidades do grupo, do material e do espaço.
- Aplicar as regras em situações de jogo

5. Riscos e benefícios da prática esportiva

- Conhecer os benefícios da prática de cada modalidade esportiva
- Conhecer os riscos presentes em cada modalidade esportiva

6. Diferença entre o esporte educacional, de rendimento e de participação.

- Compreender as diferenças entre os esportes: educacional, de rendimento e de participação
- Compreender o esporte como direito social.
- Compreender a possibilidade do esporte como opção de lazer
- Diferenciar cooperação e hipercompetitividade no esporte
- Identificar o lúdico na prática esportiva

7. Hidratação e vestuário nas práticas esportivas

- Conhecer os efeitos da hidratação no organismo durante as práticas esportivas
- Aplicar os conhecimentos sobre a hidratação durante a atividade esportiva
- Compreender os benefícios do uso de vestuário adequado para a prática esportiva
- Identificar o vestuário adequado para a prática de cada modalidade esportiva

8. A inclusão no esporte

- Compreender o esporte na perspectiva de inclusão/exclusão dos sujeitos.
- Reconhecer as possibilidades corporais de pessoas portadoras de necessidades especiais nas práticas esportivas
- Compreender o esporte como espaço de respeito às diferenças
- Compreender as influências histórico-culturais na participação da mulher no esporte

9. A importância do esporte no desenvolvimento de atitudes e valores éticos e democráticos

- Identificar o esporte como meio de superação de limitações dos sujeitos
- Reconhecer o potencial do esporte no desenvolvimento de atitudes e valores democráticos (solidariedade, respeito, autonomia, confiança, liderança)
- Adotar atitudes éticas em qualquer situação de prática esportiva

I - História
II - Fundamentos básicos
III - Estratégias de jogo
IV - Riscos e benefícios
V - Regras: significados
VI - Eventos: olimpíadas, campeonatos, passeios ciclísticos, caminhadas e maratonas
VII - Práticas esportivas vivenciadas na comunidade e em outras culturas
• Conhecer a história de cada modalidade esportiva
• Identificar os fundamentos básicos de cada modalidade esportiva
• Vivenciar os fundamentos básicos de cada modalidade
• Aplicar os fundamentos básicos de cada modalidade em situações de jogo
• Conhecer as estratégias básicas de jogo de cada modalidade
• Conhecer os riscos e benefícios da prática de cada modalidade esportiva
• Conhecer as regras de cada modalidade
• Aplicar as regras em situações de jogos
• Identificar os objetivos dos eventos esportivos
• Identificar as diferentes formas de organização de eventos esportivos
• Identificar as práticas esportivas presentes em sua comunidade e em outras culturas
 
       

Página anterior Eixos temático II: Jogos e Brincadeiras