CONTEÚDO CURRICULAR

No que tange à estrutura organizacional dos conteúdos da disciplina de Educação Física ao longo da Educação Básica, a Secretaria Estadual da Educação definiu, a partir das orientações da LDB, a estruturação dos Conteúdos Básicos ComunsCBC - relevantes e necessários ao desenvolvimento das competências e habilidades consideradas imprescindíveis aos alunos em cada nível de ensino e que, portanto, devem ser, obrigatoriamente, ensinados em todas as escolas da rede estadual de ensino de Minas Gerais.

Para enriquecer o CBC, cada escola deverá definir também os conteúdos complementares para atender às necessidades e aos interesses dos alunos, observadas as condições da escola e as características locais e regionais da comunidade onde está inserida.

 
 


Entretanto, para que a educação escolar cumpra sua função humanizadora, não basta apenas que a escola defina o CBC e os conteúdos complementares, mas, principalmente, que ela entenda e conceba o ensino como tempo e espaço nos quais os alunos adquirirem e desenvolvem competências e habilidades.

Segundo Zabala (1998), competência é a capacidade de o sujeito mobilizar saberes, conhecimentos, habilidades e atitudes para resolver problemas e tomar decisões adequadas. Habilidade, por sua vez, está relacionada ao saber fazer.

Assim, os conteúdos das disciplinas deixam de ter um fim em si mesmo e se tornam meios para o aluno desenvolver competências e habilidades que necessita para viver e atuar como cidadão em um mundo globalizado e complexo, intervindo nessa realidade de forma crítica e criativa. Em outras palavras, é por meio dos conteúdos e do tratamento dado a eles que ocorre a construção e o desenvolvimento das competências.

Zabala (1998) também nos ajuda a ampliar nossa compreensão sobre os conteúdos de ensino ao discutir suas três naturezas: procedimental, atitudinal e conceitual.

Procedimental: conteúdos que se referem aos fazeres/vivências das diferentes práticas educativas: jogar, fazer exercício físico, dançar, ler, escrever, desenhar, dentre outras. A aprendizagem desses conteúdos implica, assim, a realização de ações e a reflexão sobre a atividade, tendo em vista a consciência da atuação e a utilização deles em contextos diferenciados.

 
 

Atitudinal: conteúdos relacionados à aprendizagem de valores (princípios ou idéias éticas), atitudes (predisposições relativamente estáveis para atuar de determinada maneira) e normas (padrões ou regras de comportamento segundo determinado grupo social). Esses conteúdos são configurados por componentes cognitivos (conhecimentos e crenças), afetivos (sentimentos e preferências) e de conduta (ações e intenções). Exemplos: respeito ao colega, cooperação, autonomia, solidariedade, adoção de hábitos saudáveis. Assim, aprende-se uma atitude quando a pessoa pensa, sente e atua de forma coerente diante uma situação concreta.
   
 

Conceitual: conteúdos relacionados a conceitos ou idéias-chave presentes na base da construção da identidade das ações pedagógicas. São informações e fundamentos básicos para a aprendizagem dos porquês, da importância, dos limites e possibilidades das vivências corporais. São exemplos desses conteúdos os conceitos de corpo, organismo, saúde, esporte, técnica, tática, qualidade de vida e beleza. A aprendizagem desses conteúdos não se mostra apenas quando o educando repete a definição do conceito, mas quando é capaz de utilizá-lo para a interpretação, compreensão, exposição, análise ou avaliação de uma situação. Os conceitos são dinâmicos, evoluem historicamente com o avanço nas construções de saberes de cada área de conhecimento. Por isso, sempre podemos ampliar ou aprofundar saberes, tornando-os significativos.

Desse modo, quando adotamos a discussão dos conteúdos considerando suas três naturezas, sem desarticulá-las, estamos superando a compreensão de conteúdos curriculares como mera listagem de atividades com um fim em si mesmo. Ao contrário, estamos compreendendo esses conteúdos como meios de instrumentalizar os alunos para resolver problemas e tomar decisões acertadas ao longo da vida.
 
 

Sobre lazer é importante destacar que muitos autores (Marcellino, 1987; Melo e Aves Jr, 2003; Mascarenhas, 2003; dentre outros), o consideram como um fenômeno fruto da modernidade e das relações que se estabeleceram entre o tempo de trabalho e o tempo do não-trabalho. Grosso modo, podemos considerar que antes da Revolução Industrial, nas sociedades de características agrárias, rurais, o tempo do trabalho e o do descanso se misturavam, sendo este último, quase sempre privilégio das elites e dos intelectuais (Gomes, 2003).

O advento da industrialização provocou várias mudanças nas sociedades. As cidades se urbanizaram e o tempo passou a ser controlado pelo relógio. O trabalho tornou-se a dimensão mais importante na vida dos sujeitos, consumindo boa parte do seu dia. Entretanto, os trabalhadores do mundo inteiro, reivindicaram a redução na jornada para que o tempo do lazer pudesse ser ampliado. Dessa forma, os trabalhadores conquistaram o direito de realizá-lo em 40 horas semanais em vários países, além do fim de semana remunerado e o direito às férias.

 
 



Certamente, os efeitos da globalização, ou melhor, da “ocidentalização” do mundo, percebidos pela velocidade das mensagens veiculadas pela mídia, pela explosão das novas tecnologias da informação e comunicação, pela a exacerbação do individualismo e da competitividade, têm provocado mudanças no contexto social e também uma crise nas relações de trabalho. Presenciamos, ainda, uma grande parcela de trabalhadores no setor informal e o número de desempregados, em nosso país, é assustador. Além disso, convivemos com novas possibilidades de trabalho e, tem sido cada vez mais comum, encontrarmos sujeitos envolvidos em 12, 14 até16 horas de jornada por dia.

Desse modo, tem se tornado urgente a preocupação com a qualidade de vida das pessoas, sendo que o estresse já é considerado a doença do século XXI. Nesse contexto, o lazer vem ganhando destaque e freqüentemente, tem sido foco de debates, inclusive em relação às políticas públicas.

 
 
Mas, a conquista pelo tempo liberado do trabalho não tem se efetivado, atualmente, como conquista de um tempo para a vivência do lazer, principalmente pelas camadas populares. As baixas remunerações e a dificuldade que os trabalhadores encontram para verem resolvidas suas necessidades básicas, aliadas à sedução das propagandas induzindo o trabalhador a comprar até aquilo de que não necessita, tem feito com que o lazer seja a primeira “gordurinha” a ser cortada em seus orçamentos. Assim, “sobra” para o trabalhador vivenciar em seus momentos de lazer, a apreciação dos programas de televisão, veículo que se torna um instrumento eficaz ao agir com sutileza e eficiência na sedução do sujeito.

 
 

Portanto, este debate deve ser realizado com os alunos e alunas para que estes percebam a importância do lazer em suas vidas. A partir desse entendimento, o lazer torna-se uma dimensão tão importante quanto o trabalho na vida dos sujeitos.

Joffre Dumazedier (1973), sociólogo francês que esteve no Brasil na década de 70, no século passado, afirma que lazer é “o conjunto de ocupações, às quais o indivíduo pode se entregar de livre vontade, seja para repousar, seja para divertir-se, recrear-se e entreter-se ou ainda para desenvolver sua formação desinteressada, sua participação social voluntária, ou sua livre capacidade criadora, após se livrar das obrigações com o trabalho, família e sociais”. Para este autor, o lazer responde às necessidades do indivíduo de descanso, divertimento e desenvolvimento pessoal. Uma outra grande contribuição foi a categorização das atividades do lazer. Segundo ele, as atividades de lazer podem ser classificadas em:

• Interesses culturais físico-esportivos (futebol; futsal; futvolei; voleibol; peteca; basquetebol; handebol; natação; ginástica; ciclismo; atletismo: corridas, saltos, arremessos; caminhadas; bocha; enduro; capoeira; tênis de mesa; brincadeiras; quadrilhas; hidroginástica; macroginástica; dança; condicionamento físico; ginástica de academia; esportes radicais; dentre tantos outros...);

• Interesses culturais artísticos e manuais (música; pintura; desenho; arte carnavalesca; quadrilhas; escultura; dobraduras; papel marché; reciclagem com papéis, vidros e latas; dança; conto; cinema; vídeo; fotografia; teatro; artes circenses; máscaras; marionetes; jardinagem; arranjos florais; horticultura; pipas; colagem; tecelagem; cinema; gravura; arte digital; eco-arte; corte e costura; bordados; culinária; bijuteria; brinquedoteca; maquiagem; penteados...);

 

 
 
• Interesses culturais intelectuais (aqui se pode pensar nos estudos sobre determinado assunto, escolinhas de esporte; escolinhas de atividade física e saúde; organização esportiva; oficinas de papel, de artes plásticas e de teatro; biblioteca; poesia; leitura; quadrinhos; jornal; xadrez; damas; truco; dominó; palavras cruzadas; origami; astronomia; culinária; informática; hobbys caseiros; museu; consertos caseiros; educação ambiental; bate-papos com especialistas...);

• Interesses culturais sociais (competições esportivas; brinquedos populares; cartas a amigos; bate papos com amigos; festas populares; bailes; visitas; clube da amizade; aniversários comunitários; datas comemorativas; festivais de música, de dança, de teatro, de ginástica; encontros familiares; encontros no coreto da praça; colônia de férias; lançamentos de vídeos, revistas, filmes; gincanas; shows; videokês; festivais de truco e outros...);
   
 


A esses interesses, Luís Otávio Camargo, em 1983, acrescentou os Interesses culturais turísticos (caça ao tesouro; quintais comunitários; viajando no tempo e no álbum de memória do bairro; mapa do meu bairro/cidade; passeio ecológico; excursões no parque, no Zoológico, em museus, estádios de futebol, pontos turísticos, nas principais praças da cidade; excursões em fábricas e cinemas; piqueniques; acampamentos; trilhas; mostras ambientais; esportes da natureza; cuidados com animais; hotelaria; parques temáticos; colônias de férias...).

Influenciada pela globalização e o avanço tecnológico, mais recentemente, a teoria do lazer já aponta para os interesses culturais virtuais (internet, salas de bate papo, tevês a cabo, videogames, celulares).

O conceito de lazer apresentado por Dumazedier recebeu críticas em nosso país, principalmente, pelo fato de restringir o fenômeno à prática de atividades e ser colocado em oposição ao trabalho. Também a categorização apresentada por ele vem sendo problematizada, pelo simples fato de uma atividade se encaixar em mais de um bloco de interesses culturais. Porém, é inegável sua contribuição nos estudos do lazer em nosso País.

 
  Lazer segundo :

Nelson C. Marcellino (1987)
Leila M.S.M. Pinto (2003)
Fernando Mascarenhas (2001)
Christianne L. Gomes (2003)

   
 
Como se pode perceber o conceito de lazer é bastante complexo.

Entretanto, nenhum autor discorda que, dentre as atividades possíveis de serem desenvolvidas dentro deste fenômeno, as práticas corporais, inseridas nas várias sociedades existentes em nosso país, ganham destaque.

Torna-se fundamental, portanto a educação para a vivência do lazer.



Por isso, no universo escolar, é responsabilidade da Educação Física ampliar o entendimento dos alunos sobre esse fenômeno, que no senso comum é entendido apenas como atividades para relaxar, divertir, distrair, dentre outros.
 
       
  É preciso assumir o lazer como cultura, direito de todos, possibilidade de desenvolver a saúde e a qualidade de vida, a formação do individual e do coletivo, e sua capacidade de (re)criação e transformação  

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