Centro de referência Virtual do Professor - http://crv.educacao.mg.gov.br

 

CRIADO EM: 23/03/2006
MODIFICADO EM: 23/03/2006
: O PLANEJAMENTO GLOBAL DA ESCOLA NUMA PERSPECTIVA PARTICIPATIVA: UMA OPÇÃO POLÍTICO-PEDAGÓGICA II


Marinez Murta

2.3 O PLANEJAMENTO PARTICIPATIVO NA ESCOLA


Examinando outras metodologias de planejamento, selecionamos a proposta de Danilo Gandin, apresentada em duas obras muito didáticas, especificamente voltadas para o planejamento escolar: Planejamento como prática educativa (Loyola ,1991) e A prática do planejamento participativo (Vozes, 1994).
Segundo Gandin (1991, p. 22), planejar é:
Elaborar - decidir que tipo de sociedade e homem se quer e que tipo de ação educacional é necessária para isso; verificar a que distância se está deste tipo de ação e até que ponto se está contribuindo para o resultado final que se pretende; propor uma série orgânica de ações para diminuir esta distância e para contribuir mais para o resultado final estabelecido;
Executar - agir em conformidade com o que foi proposto; e
Avaliar - revisar sempre cada um desses momentos e cada uma dessas ações, bem como cada um dos documentos deles derivados.
Enquanto o processo de planejamento tem duração indefinida, os planos têm duração fixada (curto prazo, médio prazo e longo prazo).
O plano formalizado retrata as decisões do período de "elaboração", devendo ser pensado em função da execução.
No modelo proposto, o plano constitui-se de três partes:
1. O Marco Referencial:
O marco referencial diz respeito ao ideal que se visualiza/almeja, desdobrando-se em três aspectos:
- marco situacional;
- marco doutrinal;
- marco operativo.
Responde a questões como:
. Como é a realidade global? Contexto sócio-cultural.
. Para que finalidades trabalharemos? Funções sociais da instituição.
. Como deve ser nossa ação? Como trabalharemos? Direções e enfoques relativos às ações.

2. O Diagnóstico:
O diagnóstico é a comparação entre o ideal (o que deve ser) e o real (o que é).
Deve responder às seguintes questões:
. A que distância está a nossa instituição do ideal que dela fizemos?
. Que fatores aumentam essa distância?
. Que fatores ajudam a diminuí-la?
. Quais as causas do nosso fracasso? E do nosso sucesso?

3. A Programação:
A programação é a proposta de ação.
Questões a que responde:
. O que faremos na duração do plano para caminhar na direção que pretendemos alcançar e para reduzir a distância entre o ideal e o real de nossa instituição? Ações concretas, orientações da ação.


1. O MARCO REFERENCIAL

Dizer para que existe hoje a instituição que planeja e para que vai existir nos próximos anos é a parte mais importante de um plano e de um processo de planejamento.
Um grupo que planeja tem que expressar sua identidade. Essa identidade vai apresentar-se em posicionamentos filosóficos, sociológicos, epistemológicos, psico-pedagógicos, etc.

A- Marco Situacional.
Expressa a visão que o grupo tem do mundo atual, nos seus diferentes aspectos: social, político, econômico , cultural, educacional.

B- Marco Doutrinal
Expressa os ideais do grupo: suas aspirações mais elevadas, suas ambições, seus sonhos. Esse marco situa-se como força, orientação, utopia. Ex: uma sociedade mais igualitária, um homem mais solidário.
Não basta dizer genericamente o que deveria existir, é preciso explicitar coletivamente o significado de cada coisa no grupo, definir o quanto, onde, como, para que, cada característica ou situação deve ser realizada.

C- Marco Operativo
Expressa o posicionamento do grupo acerca do que é adequado para que a instituição planejada seja eficiente na aproximação da realidade existente à realidade idealmente descrita.
Cabe, entre os educadores, um posicionamento pedagógico coerente com os ideais de formação humana e organização social descritos no marco doutrinal. Cabe, ainda, a definição de enfoques da ação da instituição, de sua organização, de seu modo de ser, de sua metodologia.
Não se trata de propor ações concretas nesse momento (objeto da programação), mas de enunciar grandes posicionamentos: diretrizes didático-pedagógicas, princípios relacionais, diretrizes organizacionais, princípios de gestão.


2. O DIAGNÓSTICO

Juízo acerca da instituição em relação aos aspectos tratados no marco referencial, à luz de critérios retirados do marco operativo e do marco doutrinal.
A que distância estamos do tipo de organização,de metodologia e de ação que nos propusemos no marco operativo?
O diagnóstico é o resultado da comparação entre o que se traçou como ponto de chegada (marco referencial) e a descrição da realidade da instituição como ela se apresenta hoje. Por isso não é possível realizar um diagnóstico sem os parâmetros definidos pelo marco referencial, os quais contêm os critérios para julgamento da realidade, orientando a própria pesquisa da realidade. Os marcos doutrinal e operativo de uma instituição social têm o seu "dever ser" definido pela teoria, embora com diferentes possibilidades de posicionamento em relação à mesma. O diagnóstico fica na confluência entre a teoria assumida e a realidade pesquisada.
No desenvolvimento da pesquisa da realidade, mesmo quando a elaboração de instrumentos, a tabulação de dados e sua leitura se realizam por uma equipe fora da instituição, é importante que o juízo sobre a realidade seja executado pelos que participam da mesma.
Para realizar o diagnóstico é necessário voltar ao marco referencial, especialmente ao seu aspecto operativo e comparar o que se previu como desejável com o que se verificou estar acontecendo.


3. A PROGRAMAÇÃO

É a proposta de ação para se aproximar a realidade existente da realidade desejada. Saber com clareza o que se vai fazer concretamente depende de um bom marco referencial e de um bom diagnóstico.
A programação tem duas dimensões: a dos objetivos e a das políticas.

A- Os Objetivos:
Os objetivos são propostas de ações concretas que devem ser executadas dentro de um determinado tempo. Embora possam ser assumidos como fins e aspirações, nesta proposta eles trazem a conotação de realização concreta de ações rumo a alguma coisa.
Características a que os objetivos devem atender:
- exeqüibilidade no tempo de duração do plano, nas condições existentes, com os recursos disponíveis;
- necessidade.

Quanto à formulação dos objetivos, o autor propõe uma forma superadora das tendências que oscilam entre enunciados muito amplos (aspirações vagas) e descrições de pequenas ações (objetivos operacionais): elaborar objetivos de forma que o seu enunciado explique o "para quê" (finalidade vinculada ao marco referencial) e "o quê" se vai fazer (orientação da ação concreta).
No caso do planejamento institucional, em que uma ação realizada coopera para o alcance de algo proposto em nível imediatamente superior, propõe-se a elaboração da "árvore de objetivos", a qual favorece a coerência do conjunto.
À medida que a clareza se implanta em todo o agir de uma instituição, as relações entre os diversos objetivos se tornam mais precisas e as ações do dia-a-dia adquirem o valor de serem executadas para algo e de realizar as idéias que permeiam e revigoram a instituição.
A distinção entre objetivos gerais e específicos depende do grau de generalidade em que nos encontramos, mas cada conjunto de objetivos específicos se liga a um objetivo geral.
A realização de cada objetivo deve estar sob a responsabilidade de alguém ou de algum órgão da instituição em termos da coordenação das ações incluídas no objetivo.
Considerando que numa instituição há um plano global e vários planos setoriais, os objetivos relativos ao primeiro geralmente ficam sob a responsabilidade da direção central e os outros a cargo dos diversos setores.

B- Políticas e Estratégias
As políticas são princípios de ação propostos para dar uma direção específica a tudo o que se faz dentro da instituição. Como os objetivos, também expressam prioridades. A idéia é que todas as ações que se realizem em qualquer nível dentro da instituição sejam orientadas pelas políticas escolhidas.
As políticas são fundamentais à transformação da realidade: elas representam todas as pessoas e grupos agindo dentro de orientações globais escolhidas por todos, para o conjunto.
Ex: "Que as decisões sejam tomadas de uma forma participativa na escola".
As estratégias completam o sentido das políticas. Elas constituem modos concretos de realizar, naquela realidade particular, o princípio expresso pela política (ações para implementar determinada política).
Ex: A política de decisão participativa pode gerar inúmeras estratégias: organizar grupos de reflexão, realizar debates sobre o sistema educacional, incentivar os grupos existentes, etc.


4. A EXECUÇÃO

Definição de prioridades e datas amplas de execução dos objetivos.
Definição de responsáveis pela coordenação geral dos objetivos.
Definição de recursos humanos, materiais, financeiros, etc.
Elaboração de planos setoriais e de planos de curto prazo.
O plano central do qual os outros dependem -Plano Global de Médio Prazo (duração de 3 a 6 anos), abrange a Instituição em seus mais variados aspectos. A partir desse plano, e buscando concretizá-lo, serão elaborados planos menos abrangentes para orientar a ação.
Os planos de setores organizam-se para o mesmo período do plano global especificando a temática para o setor respectivo. Terão a mesma estrutura do plano global: marco referencial, diagnóstico e programação. Nestes, geralmente os marcos situacional e doutrinal permanecem os mesmos, as transformações ocorrem no marco operativo onde se traçam as linhas de operação do setor. O diagnóstico refere-se à realidade do setor, mas pode valer-se de pontos tratados no diagnóstico global da instituição. A programação do plano do setor refere-se mais aos objetivos (as políticas permanecem as mesmas), que decorrem do marco referencial e do diagnóstico desenvolvidos pelo setor.
Os planos de curto prazo são necessários para tornar precisa a ação, para concretizá-la, para realizar, no cotidiano, os ideais mais amplos. O modelo de plano é o mesmo. Estes planos são elaborados para implementar os objetivos do plano global.
Representando na forma de diagrama a proposta apresentada por Danilo Gandin:

2.4 O PLANEJAMENTO SOCIALIZADO ASCENDENTE.

É decidindo que se aprende a decidir (Paulo Freire, 1997).
Em texto elaborado pela equipe técnica do Instituto Paulo Freire - IPF, publicado na coletânea de Cadernos da Escola Cidadã (SP, 1998), doc. 3, vamos encontrar mais uma proposta metodológica de planejamento educacional num enfoque participativo.
Os autores apresentam sua proposta como uma nova metodologia de planejamento para a construção do projeto político-pedagógico da escola, denominando-a de Planejamento Socializado Ascendente.
O planejamento é socializado quando a tomada de decisões não está limitada aos especialistas, ou seja, quando todos os segmentos escolares participam ativamente desse processo. E participam com uma compreensão política do ato de planejar, que implica numa visão e análise ampla de mundo e sociedade, ultrapassando o nível dos problemas educacionais em si.
O planejamento é socializado ascendente quando se dá coletivamente e sem hierarquias burocráticas. A socialização se dá de forma progressiva, de níveis de decisão mais pontuais para instâncias mais amplas, num movimento dialético-interativo e comunicativo, desde o seu início na escola. Para garantir a transparência e a efetivação desse processo, deve ser criado um sistema de comunicação entre os diversos níveis, de forma que as consolidações de cada etapa sejam acompanhadas por todos.
Em seguida, o documento trata da forma de participação de cada segmento na prática do planejamento - pais, alunos, associações comunitárias, dirigentes da unidade, etc.
O planejamento deve levar em conta alguns princípios, objetivos e características do processo político pedagógico da escola:
- coerência de todas as ações com os princípios norteadores do planejamento socializado ascendente;
- avaliação objetiva das necessidades, expectativas de todos os segmentos escolares como ponto de partida do projeto político-pedagógico;
- melhoria da organização administrativa, pedagógica e financeira da escola, bem como modificação da estrutura formal e estabelecimento de novas relações pessoais e institucionais como efeitos do projeto.
- elaboração do projeto em termos de médio e longo prazos, com definição de prioridades a curto prazo para implantação imediata, conforme as condições reais da escola permitirem.
- reflexão contínua na unidade escolar sobre a prática pedagógica dos professores e as teorias que as embasam
- avaliação periódica da ação planificada para redimensionamento das propostas.

Feitas essas considerações de caráter mais geral, a equipe responsável pela proposta passa ao detalhamento das tarefas do planejamento escolar dirigidas à construção do projeto político-pedagógico da escola.

Por mais trabalhosa que possa parecer a definição do Marco Referencial, não podemos deixar de realizá-la. Pular essa etapa significa não amadurecer a reflexão do conjunto do coletivo escolar. Trata-se de um rico momento de aprendizagem para todos, de troca de experiências, do estabelecimento de relações de confiança, aumentando o comprometimento do grupo com o projeto político pedagógico da escola.

Concluída essa fase de planejamento, o conjunto de documentos-síntese elaborados ao longo do mesmo servirá de base para a redação do projeto político-pedagógico da escola, por uma comissão constituída para essa tarefa.
Outras comissões poderão ser organizadas para dar início às diferentes ações programadas e para desenvolver atividades de esclarecimento sobre o projeto à comunidade.

ESTRUTURA BÁSICA DO DOCUMENTO DO PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO DA ESCOLA

Trata-se de uma estrutura apenas indicativa contendo os elementos constitutivos do registro documental do projeto:
1- Identificação do projeto;
2- Histórico e justificativa:
- como se deu o processo de articulação dos segmentos para a realização do projeto;
- como foram tomadas as decisões;
- apresentação do projeto: síntese do marco referencial relacionada ao retrato da escola, prioridades e ações que se pretende implementar;
- relevância e alcance social do projeto.
3- Objetivos gerais e específicos:
Objetivos gerais: propósitos mais amplos da escola, tendo como fonte os direitos sociais, as políticas educacionais e as prioridades da escola.
Objetivos específicos: desdobramentos do objetivo geral.
4- Metas:
São mais concretas que os objetivos e mais imediatamente exeqüíveis, devendo ser mais detalhadas e quantificadas.
5- Desenvolvimento metodológico/ Estratégias de ação.
6- Recursos: humanos, materiais, financeiros.
7- Cronograma:
Distribuição ordenada das ações no tempo.
8- Avaliação:
Verificação da concretização parcial e integral dos objetivos e metas. Uso de instrumentos qualitativos e quantitativos.

Observação:
O Projeto Político-Pedagógico da escola oferece elementos para a elaboração do regimento da escola.


2.5 O PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO DA ESCOLA - UMA PROPOSTA

Em seu texto "Projeto Político- Pedagógico da Escola: uma construção coletiva", a prof. Ilma Passos (FAE- UNB) desenvolve uma reflexão sobre o processo de planejamento global da escola, entendendo-o como a própria organização do trabalho da escola como um todo.
A autora aponta a escola como o lugar onde deve dar-se a concepção , realização e execução de seu projeto educativo, uma vez que este enraiza-se numa realidade concreta.
Chama a atenção para a indissociabilidade das discussões política e pedagógica do projeto educativo da escola: o caráter político revela-se no seu compromisso com os interesses coletivos da população, no seu compromisso com a formação do cidadão para um tipo de sociedade; o caráter pedagógico (no qual se efetiva o político) revela-se na medida em que ele define as ações educativas e o tipo de escola necessário ao cumprimento de seus propósitos formativos.
Segundo a autora, "Neste sentido é que se deve considerar o projeto político-pedagógico como um processo permanente de reflexão e discussão dos problemas da escola, na busca de alternativas viáveis à efetivação de sua intencionalidade, que não é descritiva ou constatativa, mas é constitutiva."(1996, pg 13).
O projeto político-pedagógico da escola incide em dois níveis de organização do trabalho pedagógico: a organização da escola como um todo e a organização da sala de aula.
A construção de seu próprio projeto político-pedagógico, o delineamento de sua identidade, resgata a escola como espaço público, lugar de debate, do diálogo fundado na reflexão coletiva.
Para definir sua nova forma de organização, a escola necessitará de um referencial que fundamente a compreensão de sua prática e sua reconstrução: uma teoria pedagógica crítica viável e uma prática ligada aos interesses majoritários da população.
A abordagem do projeto político-pedagógico da escola deverá ser coerente e alicerçar-se nos princípios norteadores da escola democrática, pública e gratuita prevista na LDB 9394/96 ( art 3º):
a) Igualdade de condições para acesso e permanência na escola;
b) Qualidade para todos
c) Gestão democrática
d) Liberdade para aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a arte e o saber
e) Valorização do magistério (a formação continuada dos profissionais deve estar centrada na escola e integrar o projeto político-pedagógico).
A construção do projeto político-pedagógico da escola, calcada nesses princípios, deverá constituir-se em instrumento de luta, contrapondo-se à fragmentação do trabalho pedagógico, à sua rotinização, aos efeitos negativos do poder autoritário e centralizador da administração central.
A análise dos elementos constitutivos da organização escolar, certamente trará uma contribuição importante para a construção do projeto da escola, ressaltando-se:
1) Finalidades da escola: reflexão sobre as finalidades sociais, políticas e culturais. Como e com que intensidade a escola tem perseguido cada uma das seguintes finalidades: cultural, política e social, formação profissional, formação humanística; a partir daí, decidir, coletivamente, o que deve ser reforçado dentro da escola e como detalhar as finalidades para se atingir a almejada cidadania.
2) Estrutura organizacional: exame das estruturas administrativas e pedagógicas. A estrutura administrativa, além da coordenação do fluxo das ações institucionais, envolve ainda: prédio, equipamento, material didático, mobiliário, limpeza, saneamento básico (água, esgoto, lixo, energia elétrica). As estruturas pedagógicas envolvem as interações políticas, as questões de ensino/aprendizagem e as questões de currículo.
Aqui inserem-se todos os setores especificamente voltados para o desenvolvimento do trabalho pedagógico.
? Focos da análise:
. Valor atribuído às estruturas
. Relações funcionais entre as estruturas
? Questões orientadoras:
. Que tipo de gestão está sendo praticada?
. O que queremos e precisamos mudar na nossa escola?
. Quais as funções educativas predominantes?
. Como é vista a constituição e a distribuição do poder?
. Quais os fundamentos regimentais?
Em síntese:
Caracterizar a estrutura organizacional implica em caracterizar os problemas que afetam o processo ensino/aprendizagem e interrogar os pressupostos que embasam a estrutura democrática da escola, a qual viabiliza a formação de cidadãos aptos a criar ou a modificar a realidade social.
Examinar nesse aspecto as questões de organização do tempo, da ordem e da disciplina.

CURRÍCULO:
. Importante elemento constitutivo da organização escolar. Refere-se à organização do conhecimento escolar.
. Promove na escola uma reflexão aprofundada sobre o processo de produção do conhecimento escolar.
. Identificação de componentes ideológicos do conhecimento escolar utilizados para a manutenção dos privilégios.
. Análise interpretativa e crítica da cultura dominante e da cultura popular. Visão de currículo com expressão de uma cultura.
. Currículo e contexto social
. Tipo de organização curricular adotada e desejável (fragmentação x integração, por ex.).
. Currículo e controle social
. Currículo oculto e currículo formal
. Orientação da organização curricular para fins emancipatórios.

TEMPO ESCOLAR:
. Calendário
. Horário
. Tempo segmentado
. Organização do tempo e relações sociais (quanto mais compartimentados os tempos, mais hierarquizadas e ritualizadas as relações sociais).

O PROCESSO DE DECISÃO:
. Fluxo das tarefas, ações e decisões: como é regulado;
. Procedimentos (mais ou menos formalizados)
. Relações (mais ou menos hierarquizadas)
. Graus e níveis de participação
. Instâncias e espaços de participação

AS RELAÇÕES DE TRABALHO:
. Bases das relações de trabalho na escola: solidariedade, reciprocidade, participação coletiva x fragmentação e controle hierárquico
. Relações horizontais x verticais:
A construção de novas relações de poder poderá ocorrer na dinâmica interna da escola e da sala de aula.

AVALIAÇÃO:
. Avaliadores que conjugam as idéias de uma visão global, analisam o projeto político-pedagógico como algo vinculado aos aspectos políticos e sociais.
. Acompanhar e avaliar o projeto político-pedagógico é avaliar os resultados da própria organização do trabalho pedagógico.
. A avaliação tem um compromisso mais amplo do que a mera eficiência e eficácia das propostas conservadoras.
. A avaliação oferece subsídios ao projeto político pedagógico e imprime uma direção às ações dos educandos e educadores.
. Momentos da avaliação:
- Descrição e problematização da realidade escolar
- Compreensão crítica da realidade descrita e problematizada
- Proposição de alternativas de ação.


3. CONFRONTANDO ENCAMINHAMENTOS

As propostas examinadas anteriormente trazem contribuições específicas e complementares que enriquecem nosso universo conceitual e instrumental acerca do planejamento participativo. Certamente, poderão nos subsidiar na definição de uma proposta comum de planejamento, para orientar a construção dos projetos pedagógicos das escolas de ensino médio da rede estadual do Espírito Santo.


3.1 CONTRIBUIÇÕES DO PLANEJAMENTO ESTRATÉGICO NA EMPRESA

O texto de Philip Kotler é rico em esclarecimentos conceituais,fortalecendo a compreensão das idéias chave do planejamento estratégico e de suas ferramentas próprias.

CONCEITOS ABORDADOS:
. Missão, função da missão, elementos que moldam a missão, processo de declaração de missão, relação entre a missão e visão da instituição (sonho);
. Objetivos/metas;
. Estratégias;
. Planejamento convencional x planejamento estratégico

IDÉIAS-CHAVE:
. O plano global estratégico da instituição (longo prazo) é acrescido de projetos setoriais, planos de curto prazo e programas operacionais, coerentes com essa matriz;
. Não há uma estratégia ótima, ideal, as estratégias são situacionais;
. O foco da instituição deve estar em sua competência central (suas raízes, suas questões centrais, sua razão de ser);
. As definições de mercado são mais importantes que as definições de produto (satisfação das necessidades do consumidor, satisfação das necessidades sociais).

FERRAMENTAS:

. Componentes do processo de planejamento estratégico: definição da missão, análise ambiental, definição de metas, estratégias e produto;
. Detalhamento das etapas do planejamento estratégico.


3.2 CONTRIBUIÇÕES DA PROPOSTA DO MEC

A proposta de planejamento estratégico adotada pelo MEC (padrão dos órgãos internacionais de financiamento), voltada para a orientação das escolas na gestão de reformas e inovações numa abordagem participativa, apresenta semelhanças com a proposta apresentada por Philip Kotler em termos de conceitos, idéias-chave, ferramentas, etapas de planejamento, adequando-os ao contexto escolar.

CONCEITOS ABORDADOS:
. Planejamento estratégico;
. Gestão;
. Missão da escola.

IDÉIAS CHAVE:
. O planejamento estratégico é integrado pelo planejamento operacional;
. O planejamento estratégico, como instrumento de gestão escolar, integra duas outras ações básicas da constituição de uma nova cultura de gestão: formação de equipes de trabalho e criação de estruturas colegiadas nas escolas;
. Os objetivos formulados para as áreas técnico-pedagógica, de gestão e de integração com a comunidade deverão estar estreitamente vinculados à missão institucional - coerência com as idéias centrais da instituição.

ESTRATÉGICAS METODOLÓGICAS:
Fases do planejamento estratégico:
I- Planejamento estratégico - organização da escola para planejar coletivamente e definir os posicionamentos mais amplos da instituição (missão, análise de contextos externo e interno, diagnostico, objetivos estratégicos);
II- Planejamento operacional - detalhamento das ações: objetivos específicos, programação de atividades, prazos, custos, gerenciamento do projeto e avaliação.


3.3 CONTRIBUIÇÕES DA PROPOSTA DE PLANEJAMENTO PARTICIPATIVO

A proposta de planejamento participativo apresentada por Danilo Gandin, além de enriquecer a compreensão conceitual, traz importantes contribuições de natureza metodológica, avançando na proposição das estratégias para orientar o processo de planejamento global da escola.
Talvez a sua maior contribuição para a escola seja a relevância dada ao marco referencial, uma vez que, o projeto pedagógico é um projeto de desenvolvimento humano, extrapolando em muito o espaço que se destina a este aspecto no planejamento estratégico desenvolvido na organização empresarial.

CONCEITOS ABORDADOS:
. Ato de planejar;
. Planejamento x plano;
. Marco referencial: situacional, doutrinal e operativo;
. Objetivos;
. Políticas e estratégias;

IDÉIAS-CHAVE:
. O marco referencial - dizer para que existe hoje a instituição que planeja e para que vai existir nos próximos anos - é a parte mais importante de um plano e de um processo de planejamento. RELEVÂNCIA DOS FUNDAMENTOS: marcam a identidade da instituição;
. Importância da explicitação dos posicionamentos assumidos. Não basta declarar genericamente o que deveria existir, é preciso aprofundar no significado de cada opção assumida pelo grupo;
. Importância da coerência entre o marco doutrinal e o marco operativo (definir uma pedagogia adequada, diretrizes pedagógicas coerentes com os ideais de formação humana e organização social);
. Diagnóstico como juízo coletivo da realidade da instituição, à luz de critérios retirados dos marcos operativo e doutrinal. Não se pode proceder ao diagnóstico sem os parâmetros de um marco referencial do grupo. Importância da realização do juízo sobre a realidade pelos que participam da instituição;
. As ações do dia a dia adquirem valor ao serem executadas para atingir os objetivos institucionais, sendo um fator de realização das idéias que inspiram e revigoram a instituição.

ESTRATÉGIAS METODOLÓGICAS:
Etapas do plano:
I- Marco referencial: situacional, doutrinal e operativo.
II- Diagnóstico: ideal x real.
III- Programação: plano de ação.
IV- Execução.

3.4 CONTRIBUIÇÕES DA PROPOSTA DE PLANEJAMENTO DA EQUIPE DO IPF

A proposta de planejamento do projeto político pedagógico desenvolvida pela equipe técnica do IPF (1998), aproxima-se muito da proposta anterior (Danilo Gandin), apresentando algumas características singulares que vale a pena retomar: propõe um planejamento socializado ascendente, delimita claramente as tarefas do processo de planejamento que vão compondo cada aspecto do projeto da escola naquele momento (como resultados de opções e posicionamentos assumidos); apresenta uma estrutura indicativa para a redação do documento formal que conterá o projeto pedagógico da escola.

CONCEITOS ABORDADOS:
. Planejamento socializado ascendente;
. Marco referencial;
. Diagnóstico.

IDÉIAS CHAVE:
. A participação dos diversos segmentos da comunidade escolar no processo de planejamento deve dar-se com uma compreensão política do processo de planejar, a qual implica numa visão e análise ampla de mundo e de sociedade;
. A socialização dos trabalhos nos diversos níveis deve ser progressiva e sistemática, num movimento dialético-interativo e comunicativo em todas as fases do planejamento;
. Deve ser resguardada a coerência de todas as ações com os princípios norteadores do planejamento socializado ascendente;
. O ponto de partida do projeto político pedagógico deve ser a avaliação objetiva das necessidades e expectativas de todos os segmentos escolares;
. A prática pedagógica dos professores e as teorias que as embasam devem ser objeto de reflexão contínua na escola.

ESTRATÉGIAS METODOLÓGICAS:
. Metodologia dialógica-problematizadora - levantamento de perguntas fundamentais;
. Passos para a definição do marco referencial: visão macro da realidade, visão utópica de mundo (aspirações de homem, sociedade, etc), hipóteses de estratégias e ações específicas nas áreas pedagógica, administrativa e financeira (como deveria ser a ação, princípios orientadores);
. Passos para o diagnóstico: avaliação dos resultados do ano anterior, definição do auto retrato da escola (estudo etnográfico);
. Programação de atividades (proposição de ações concretas, de atividades de rotina, de linhas de ação, de regulamentações).


3.5 CONTRIBUIÇÕES DA PROPOSTA DE PLANEJAMENTO DO PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO - ILMA PASSOS

O texto de Ilma Passos é especialmente rico para orientar a análise dos elementos internos da organização escolar, com base nos princípios fundamentais norteadores da construção de uma escola publica democrática. Suas maiores contribuições referem-se à construção do marco referencial, contendo indicações importantes para a definição dos aspectos curriculares a serem focalizados no diagnóstico e reconstrução do trabalho na escola.

CONCEITOS ABORDADOS:
. Processo de planejamento global da escola;
. O político e o pedagógico no projeto da escola;
. Projeto político-pedagógico da escola;

IDÉIAS CHAVE:
. Indissociabilidade das dimensões política e pedagógica do projeto educativo da escola;
. Incidência do projeto político pedagógico em dois níveis de organização do trabalho educacional: a organização da escola como um todo e a organização da sala de aula;
. Resgate da escola como espaço público ao construir coletivamente sua identidade própria;
. Necessidade de um referencial que fundamente a compreensão e a reconstrução da prática escolar;
. Projeto político-pedagógico como instrumento de luta contrapondo-se à fragmentação e à rotinização do trabalho escolar (ambas alienantes) e aos efeitos negativos do poder autoritário e centralizador;
. Avaliadores que conjugam idéias de uma visão global, avaliam o projeto político-pedagógico como algo vinculado aos aspectos políticos e sociais.
. Visão cultural de currículo escolar com ênfase no desvelamento das ideologias subjacentes à prática pedagógica, fundamentais à sua reconstrução .

ESTRATÉGIA METODOLÓGICA:
. Análise reflexiva e coletiva dos elementos constitutivos da organização escolar, a partir de questões orientadoras: finalidades da escola, estrutura organizacional administrativa e pedagógica da escola, currículo, tempo escolar, processo decisório, bases das relações de trabalho,
. avaliação.
. Etapas ou dimensões do processo de planejamento do projeto político- pedagógico:
- Situar;
- Elaborar;
- Executar.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para o nosso propósito de definir uma linha de planejamento que oriente o trabalho das escolas na construção de seu projeto pedagógico, acreditamos que a leitura e reflexão desenvolvidas a partir das propostas reunidas nesse documento poderão ser de grande contribuição para o avanço de nossos trabalhos. Não porque nos forneçam modelos prontos, mas porque nos possibilitam um exercício coletivo de compreensão de diferentes estilos de caminhar, de desvendamento das sutilezas conceituais e procedimentais contidas em cada proposta, de busca de elementos centrais que configurem o processo de planejamento numa perspectiva descentralizadora e participativa como a que nos propomos desenvolver.
A expectativa é que, ao final dessa etapa, muitos equívocos conceituais e dúvidas estejam esclarecidos, bem como algumas propostas relativas ao processo de encaminhamento da elaboração do PDE nas escolas tenham sido produzidas pelo grupo.
Está lançado o desafio.

5. BIBLIOGRAFIA/ SUGESTÕES DE LEITURA

AMARAL, Ana Lúcia. Plano de desenvolvimento da escola. BH, Amae Educando. Agosto, 1996, n 261.
CADERNOS ESCOLA CIDADÃ, vol.3. SP, Instituto Paulo Freire (IPF), 1998.
CURY, C.R.J. A organização da Educação Nacional e o Plano de Desenvolvimento da Escola à luz da Lei de Diretrizes e Bases. UFMG (mimeo).
FERREIRA, Francisco W. Planejamento SIM e NÃO: um modo de agir num mundo em permanente mudança. RJ, Paz e Terra, 1981.
FUSARI, José C. O planejamento escolar não e um ritual burocrático. Sala de Aula (revista), p.34.
________. O planejamento educativo e a pratica dos educadores. Revista ANDE, nº8.
GANDIN, Danilo. Planejamento como prática educativa. SP, Loyola, 1991.
________.A prática do planejamento participativo. Petrópolis, Vozes, 1995.
KOTLER, Philip. Preparação da base através do planejamento estratégico orientado para o mercado. Administração de Marketing. Análise, planejamento implementação e controle. SP, Atlas, 1998.
LERNER, Délia et al. Sobre o Planejamento. Aprendizagem de escrita na escola: reflexões sobre a proposta pedagógica construtivista. Artes médicas.
MEC/SEMTEC /PROEP. Manual de planejamento estratégico escolar. Construindo a nova educação profissional. Março, 1999. 2ª versão.
MEC. Plano Decenal de Educação - 1993/ 2003. Brasília, 1993.
MEC, LDB nº9394/96 de 20/12/96.
PINTO, João Bosco Guedes. Planejamento participativo na escola cidadã. In: SILVA, Luis Heron et al. Paixão de aprender II. RJ, Vozes, 1995.
RAYS, Oswaldo Alonso. Planejamento de ensino: um ato político-pedagógico. VI Encontro Nacional de Didática e Prática de Ensino, Recife, 1987. (Anais)
SANT'ANA, Flávia M. et all. Dois enfoques modernos sobre planejamento: o sistêmico e o participativo. Planejamento de ensino e avaliação. Porto Alegre, Sagra, 1991.
VEIGA, Ilma Passos (Org). Projeto político-pedagógico da escola. SP, Papirus, 1996.

 

Fonte

Disponiblizado inicialmente na Biblioteca do SIAPE - Sistema de Ação Pedagógica.

 

Veja também:
O Planejamento Global da Escola numa Perspectiva Participativa: uma opção político-pedagógica - Parte I