Eixos, temas e tópicos do currículo
A Proposta Curricular de Ciências Naturais se desenvolve em torno de três eixos curriculares: Ambiente e Vida; Corpo Humano e Saúde; e Construindo Modelos1. Os eixos definem diretrizes gerais que permitem aglutinar aspectos do currículo. Eles não são estanques e se superpõem nos temas e tópicos que dele fazem parte. Por exemplo: a presença do homem nos ambientes e dos ambientes na saúde humana é um aspecto importante do currículo (o tópico “doenças de veiculação hídrica”, por exemplo, é uma interseção entre os dois eixos). Do mesmo modo, o eixo Construindo Modelos está presente nas temáticas dos demais eixos. Isso porque a ciência desenvolve modelos para tratar de aspectos de inter-relações entre organismos e para compreender as mudanças nos ambientes, assim como também para entender a causa das doenças e descrever procedimentos para preservar a saúde.
Apesar dessas interseções, procuramos relacionar temas e tópicos com os eixos que se destacam com maior relevância no seu ensino. Assim, fazem parte do eixo Ambiente e Vida os temas: 1. Diversidade de vida; 2. Diversidade de materiais; 3. Formação e manejo dos solos; 4. Decomposição de materiais; 5. Qualidade e tratamento da água; 6. Energia e Ambiente; 7. Evolução dos seres vivos. Fazem parte do eixo Corpo Humano e Saúde os temas: 1. A dinâmica do corpo; 2. Sexualidade; e 3. Interações do corpo com estímulos do ambiente.
As escolhas mais difíceis foram aquelas relativas ao eixo Construindo Modelos, pois todo conhecimento científico envolve a construção de modelos teóricos que nos permitem fazer previsões e estabelecer relações causais entre acontecimentos. Por exemplo: a ciência nos fornece modelos para explicar por que ficamos doentes (infecções viróticas e bacterianas, verminoses, tumores, etc.); para descrever as interações e interdependências entre seres vivos em um dado ambiente; para explicar a diversidade e a diversificação das espécies ao longo do tempo, para explicar como os organismos interagem com fatores ambientais e reagem a seus estímulos, entre tantos outros.
Podemos generalizar afirmando que o eixo Construindo Modelos perpassa toda e qualquer tema de estudo das ciências naturais. Apesar disso, elegemos alguns temas para compor esse eixo curricular. São eles: 1. O mundo muito grande; 2. O mundo muito pequeno; 3. Mecanismos de Herança; e 4. Processos de transferências de Energia. Esses temas lidam fortemente com a construção de entidades e com a imaginação de algo que está além do mundo diretamente percebido: partículas que compõem a matéria (átomos e moléculas), genes, energia e própria Terra em movimento no espaço são aspectos que destacamos, entre tantos outros, para enfatizar essa característica da atividade científica de construir modelos cada vez mais refinados, capazes de nos auxiliar a interpretar os fenômenos já conhecidos e a produzir outros fenômenos e materiais, antes inexistentes.
Ao contrário do que pode parecer à primeira vista, os eixos não definem separações rígidas entre conhecimentos biológicos, físicos e químicos. Mesmo que os conteúdos biológicos sejam predominantes nos temas que fazem parte dos dois primeiros eixos, vários conteúdos químicos e físicos o integram e são fundamentais para a compreensão que possamos fazer acerca deles. Do mesmo modo, o eixo Construindo Modelos inclui o modelo de herança genética, organizador do pensamento biológico.
Os eixos se desdobram em temas e estes, por sua vez, definem tópicos do currículo. Alguns tópicos são obrigatórios e outros, complementares. Os tópicos complementares não são obrigatórios, podendo ser substituídos, ampliados ou reduzidos conforme o projeto educativo de cada escola. Portanto, os eixos apontam para aspectos mais gerais e estruturadores da Proposta Curricular; os temas indicam instâncias intermediárias, e os tópicos, unidades de estudo mais específicas.
Ordenação dos conteúdos
Como todo currículo temático, esta Proposta Curricular pode ser desenvolvida em diferentes seqüências. Por exemplo: pode-se optar por desenvolver um dado eixo curricular ao longo de uma dada série ou ano escolar ou, em lugar disso, pode-se distribuir os eixos ao longo dos quatro anos do curso. Uma solução que nos parece bastante viável é a de incluir, em todos os anos do ciclo, tópicos de cada um dos eixos curriculares. Os temas podem, também ser desenvolvidos parcialmente em uma série e retomados em outra. É o caso do tema Sexualidade, que pode ser iniciado na 6ª série com as “Mudanças na Adolescência” (tópico complementar) e retornar na 7ª série com “Reprodução humana: características e ação hormonal” e “Métodos contraceptivos”.
A presente Proposta Curricular preserva espaço de autonomia e tomada de decisões por parte dos professores e equipes de professores nas escolas. É fundamental que cada escola, por meio de decisão da equipe de professores, elabore seus planos plurianuais de curso, evitando que determinados temas do currículo sejam trabalhados à exaustão, enquanto outros não são ensinados. É importante, ainda, que a escola decida o ordenamento curricular que melhor se aproxime das necessidades formativas de seus alunos, das condições da escola e das características de seus professores.
Embora seja legítimo propor muitas diferentes maneiras de organizar o currículo, nem todas elas são igualmente válidas ou compatíveis com a presente proposta. Por essa razão, sugerimos alguns critérios para que as escolas possam definir seus planos de curso.
O primeiro critério é o da adequação à faixa etária dos estudantes. Nos quatro últimos anos do ensino fundamental, acompanhamos profundas mudanças nos interesses e habilidades dos jovens estudantes entre 11 e 15 anos de idade. Portanto, o currículo deve ser desenvolvido com uma progressão no nível de abstração dos temas tratados. Um mesmo eixo curricular - por exemplo, Ambiente e vida - contém temas com diferentes níveis de abstração - por exemplo, “A diversidade de vida” e “Evolução dos seres vivos”.
Certos tópicos do currículo foram organizados de modo a favorecer uma abordagem recursiva, dando ao estudante oportunidades de rever conceitos estruturadores do pensamento científico em vários momentos e em graus progressivos de complexidade. Por exemplo: o conceito de adaptação biológica é inicialmente apresentado como características e comportamento dos seres vivos que permitem sua sobrevivência e reprodução nos habitats em que vivem. Essa abordagem mais descritiva, própria dos primeiros anos do ciclo (6ª e 7ª séries), vai dando lugar, nos últimos anos de formação, a uma abordagem mais abstrata, assentada na Teoria da Evolução e na Genética. Nesse sentido, o conceito de adaptação passa a integrar a noção de transformações evolutivas, em escala de muitas e muitas gerações, que permitem que determinadas características bem sucedidas dos organismos sejam transmitidas aos descendentes, em detrimento de outras, por um mecanismo de seleção natural.
O segundo critério é o da inter-relação entre conceitos desenvolvidos em diferentes tópicos do currículo. Por exemplo: uma primeira abordagem das reações químicas é fundamental para que processos biológicos possam ser compreendidos. Do mesmo modo, é desejável que uma primeira aproximação do conceito de energia (tópicos “Transformações e Transferências de Energia” e “Obtenção de energia pelos organismos”) seja desenvolvida para que os ciclos de energia nos ecossistemas possam ser compreendidos. Essa é uma das razões que nos levam a concluir que o adiamento dos tópicos de conhecimento químico e físico para a última série do Ensino Fundamental empobrece o currículo.
Outro exemplo de inter-relação entre conteúdos da proposta é a aproximação do estudo dos ambientes e o estudo dos seres vivos. Em lugar de trazer esses dois temas separados, os temas do currículo lidam com a vida nos ambientes, focando as inter-relações entre fatores bióticos e abióticos do ambiente e a interdependência entre organismos. Várias dessas proposições estão exemplificadas em Roteiros de Atividades publicados no Centro de Referência Virtual do Professor. |