Centro de referência Virtual do Professor - http://crv.educacao.mg.gov.br

 

CRIADO EM: 24/04/2006
MODIFICADO EM: 24/04/2006
 : A ESCOLA COMO INSTITUIÇÃO E ORGANIZAÇÃO - PARTE I


José Newton Garcia de Araújo

Fig. 40 _ Professoras-cursistas chegam ao Campus II da UNIUBE para atividades da 3a Semana Presencial do Veredas. Uberaba, 2003.

Introdução

Caro Cursista,

Ao longo desta unidade, vamos conversar sobre alguns conceitos que costumamos utilizar quase todo dia, tais como organização, instituição e comunidade. Mas nem sempre estamos preocupados com os significados específicos de cada uma dessas noções. Aliás, nem é preciso. Quando falamos em escola, não temos que definir o que é escola, pois sabemos do que estamos falando. Também não precisamos definir o que é cidadania, quando a evocamos. No entanto, em alguns casos, escola ou cidadania podem significar uma coisa para você e outra para seu aluno. Ou, às vezes, a coisa é tão "comum" que a gente sabe o que é, mas na hora de definir ou explicar já não dá conta. Talvez isso aconteça, quando se fala em organização, instituição e comunidade. Então, não custa nada rever o que alguns teóricos disseram sobre elas.

Pois é, nesta unidade, nosso objetivo consiste em mostrar como cada um desses conceitos é diferente do outro, mas também como eles têm uma relação estreita de interdependência, principalmente quando se trata da escola. Afinal, toda escola é uma rede que entrelaça os fios da organização, da instituição e da comunidade. Talvez o estudo das diferenças e do que é comum entre elas possa nos ajudar... bem, não temos o dom de prever como esse estudo vai "mexer" com você. Ou de que modo ele contribuirá para nos livrar de algumas idéias preconcebidas que nos fazem carregar certos pesos desnecessários.

Uma última observação: o fato de estarmos trabalhando numa unidade de Psicologia Social não significa que estamos "isolados" dos demais componentes aqui estudados, como a Antropologia, a Sociologia, a Filosofia e outras mais. A perspectiva interdisciplinar nos convida a fazer algumas conexões entre esses campos diversos. De que maneira? Bem, para isso, convidamos você para caminharmos juntos na leitura desta unidade. O roteiro que propomos para ela é simples.

Na primeira seção, denominada A escola vista como organização, vamos abordar genericamente o conceito de organização, procurando, no entanto, encaminhar nosso estudo para a compreensão do que é a organização escolar.

Na segunda seção, intitulada A escola vista como instituição, buscaremos definir ou descrever situações que caracterizam a instituição, já procurando compreender como ela está ligada à organização. Nesta seção, vamos introduzir dois tópicos: o primeiro deles, que chamamos de Instituições, mitos e ritos, faz a ponte interdisciplinar com a Antropologia; a segunda, A vida pulsional e as instituições, vai tratar de uma força psicológica interna, indomável, que move os indivíduos e os grupos nas instituições e, portanto, na escola.

A terceira seção, denominada A escola e a comunidade, mostrará, após uma discussão genérica sobre o conceito de comunidade, também direcionado para a compreensão da realidade escolar, um tópico especial abordando as relações de troca e os diversos sentidos da noção de solidariedade.

Boa leitura!

Objetivos Específicos

Esperamos que o estudo das seções e sub-seções desta unidade possa contribuir para você:

- Caracterizar a escola como uma organização.

- Identificar a escola como um espaço organizacional e institucional.

- Caracterizar a escola também como uma comunidade.

Texto Básico

Seção 1: A Escola Vista como Organização

Objetivo especifico: caracterizar a escola como uma organização.

O termo organização é bastante amplo para caber em uma definição simples. Mas podemos conversar sobre alguns de seus múltiplos aspectos. Imaginemos um supermercado, uma fábrica de calçados, um hospital, uma igreja, um clube esportivo, uma secretaria de estado, um partido político. Todas essas "unidades sociais ou sociológicas" são organizações. E aí? Já dissemos tudo sobre o que é uma organização? Claro que não. Então, vamos dar mais corda ao assunto, falando, por exemplo, de algumas condições necessárias ao funcionamento de uma organização.

Para que uma fábrica comece a produzir seus sapatos, ela tem de passar por diversos momentos. O primeiro deles: como qualquer organização, ela tem de ser inventada abstratamente, depois planejada concretamente. Assim, um indivíduo _ ou um grupo de amigos, de profissionais _ decide criar uma agência de turismo, abrir uma discoteca ou um restaurante, fundar uma cooperativa, um sindicato, um hospital, uma nova igreja ou um time de futebol. A idéia parece interessante.

Se todos concordam, aí vem o segundo momento, que é implantar a organização desejada. Isso pede um bom planejamento, dinheiro próprio ou financiado, contratação de pessoal, definição de salários, de tarefas ou de funções, dentro de uma hierarquia mais ou menos rígida, conforme a natureza da organização, além de um regulamento, definição dos dias de trabalho, horários e assim por diante. Além disso, é preciso escolher um local de funcionamento, contratar pessoal, comprar equipamentos, computadores, móveis etc., fazer a propaganda da organização, daquilo que ela vai oferecer _ por exemplo: viagens, calçados, comida e bebida, promessa de salvação, saúde, lazer e assim por diante.

E mais: concluída a implantação, a organização tem de ser sistematicamente administrada, de preferência segundo um modelo gerencial que garanta seu bom funcionamento e sua maleabilidade para sobreviver aos contínuos problemas, crises e mudanças que ocorrem tanto internamente quanto externamente. Exemplo de alguns problemas internos: conflitos entre dirigentes ou destes com os trabalhadores, má qualidade dos produtos e dos serviços, dívidas, acidentes e adoecimento no trabalho etc. E de problemas externos: crise política na cidade ou no país, recessão econômica, mudança de mentalidades ou de hábitos dos "consumidores" e muitas coisas mais... Basta você parar e imaginar.

Pensando bem, uma das condições para a organização sobreviver é a financeira. Se seu objetivo é o lucro, ela tem que vender com lucros seu produto (exemplo: o sapato) ou seus serviços (exemplo: a entrega dos correios). Se o objetivo é outro, ela procura sustentar-se pelo poder público ou arrecadar fundos de entidades públicas ou privadas, de simpatizantes, dos usuários etc.

Nesse ponto, alguém poderia exclamar: "a coisa é mais complicada do que se pensa..."! Verdade, é complicado sim, porque os objetivos da organização são muitos, ao mesmo tempo. Por exemplo: obter lucros, se ela visa basicamente ao lucro; competir com as empresas concorrentes; produzir bens ou prestar serviços de qualidade; "fazer a cabeça" do consumidor para que ele passe a consumir o seu produto. O psicossociólogo André Levy escreve que o termo organização:

(...)pode designar uma unidade sociológica orientada para a produção coletiva de bens, de idéias ou de serviços, portanto um conjunto concreto de pessoas e de grupos, mas também de meios técnicos ou materiais, de conhecimentos e de experiências associadas para que se possa chegar a objetivos comuns, o que supõe a gestão e o tratamento de problemas de ação. (Lévy, 2001: 129)

A esta altura, você poderá perguntar: "mas, afinal, para que pensar em organizações como fábrica, hospital ou clube, se eu não trabalho nem vivo delas? Afinal, sou professor, sou um trabalhador da Educação." Pois bem, o que vamos dizer adiante é que a escola é também uma organização. Mas antes disso, vamos recordar um pouco o que estudamos.

Atividade 1

Considerando os parágrafos precedentes, você vai colocar F (falso) ou V (verdadeiro) para as proposições abaixo.

a ( ) Uma organização não precisa ter tarefas definidas para seus funcionários, cada qual faz o que sabe fazer melhor.

b ( ) A agência dos correios, o hospital e a escola são organizações de prestação de serviços.

c ( ) O principal produto de uma fábrica de calçados é o conhecimento sobre o uso racional do couro, para evitar a poluição ambiental.

d ( ) Ensinar é uma forma de prestar serviço ao aluno, à família e à sociedade.

e ( ) Para a escola funcionar bem, basta que os professores tenham boa vontade, sendo desnecessário dar atenção a aspectos como o horário.

Então, vamos ao nosso ponto: a escola é uma organização. E ela é parte essencial de nossas vidas, podendo nos trazer ora sentimentos de realização pessoal, ora frustrações e sofrimentos. Mas não é fácil falar dela como organização. Com efeito, nem sempre é claro por que ela funciona bem, em dado momento, e depois fica cheia de problemas. As razões são muitas. Aliás, você já pensou nas diferenças entre a "escola-organização pública" e a "escola-organização privada"? Será que os objetivos ou ideais de uma e de outra coincidem em todos os pontos? Essa é uma questão que deve fazer parte de nossas perguntas, não?

Fig. 41 _ E.E. Indígena Pataxó. Bacumuxá de Carmésia.

Fonte: MINAS GERAIS. Ações da Secretaria de Estado da Educação. Relatório de Gestão 1999/2002. Belo Horizonte: SEE-MG, 2002. p.74

Antes de continuar, relembremos que, até aqui, estamos falando da escola apenas como organização. Depois é que vamos tratá-la como instituição. Os dois conceitos se referem a realidades distintas, embora sejam intimamente entrelaçadas.

Então, vamos reter as afirmações segundo as quais toda organização tem como objetivos: a produção de bens materiais e simbólicos, tais como, um calçado, um anel de brilhante, uma foto, uma bandeira; ou a oferta de serviços, como, vender anel, picolé ou uma viagem de turismo, entregar uma pizza em domicílio, curar o doente, ensinar o aluno. Mas antes da pizza ou da viagem, vamos à nossa atividade. Para realizá-la, saiba que as suas respostas não se enquadram no "certo" ou "errado". Elas são, antes de tudo, um momento para você exercitar sua reflexão.

Atividade 2

Imagine diversos tipos de escolas, sejam elas de ensino fundamental ou médio, da capital ou do interior, públicas ou privadas. Agora que você está aprendendo que a escola é uma organização, responda aos itens abaixo:

A) Qual é a produção ou serviço fundamental de uma escola?

B) Quais as pessoas ou grupos de pessoas que se beneficiam das produções de uma escola, além dos alunos?

Já falamos que as organizações agregam um conjunto de pessoas e grupos, tendo um objetivo definido, utilizando técnicas ou estratégias próprias de funcionamento e assim por diante. Mas para que as pessoas estão juntas ali? Você sabe: em primeiro lugar, para levar à frente o projeto de ação da organização em si, não um projeto de vida individual. Expliquemos: se um operário trabalha numa fábrica, num supermercado ou num banco, com um magro salário, às vezes até adoecendo, em função das pesadas condições de trabalho, ele está ali basicamente para atender aos objetivos da empresa. Talvez pouca coisa lhe seja proveitosa, em termos de crescimento pessoal ou profissional. Ele vende sua força de trabalho para sobreviver, mesmo sem saber se amanhã ainda estará empregado ou não.

Felizmente, em lugares como a escola, mesmo que estejamos realizando os objetivos da organização (ensinar, administrar, cuidar etc), o trabalho e a convivência com os colegas pode contribuir para nossas realizações profissional, afetiva, intelectual, além de outras. Por isso mesmo, costumamos dizer que "a escola faz parte de nossa vida". Mas não cheguemos ao ponto de dizer que "a escola é nossa família", pois há grandes diferenças entre as duas, mesmo que elas tenham elementos comuns.

É inegável que, na escola, fazemos nosso trabalho profissional, convivemos, militamos politicamente, brincamos ou trocamos confidências. Em outras palavras, se nossas relações com os colegas são, antes de tudo, relações funcionais (estamos ali com a função de dar aulas, de administrar, de debater os rumos da escola etc), elas podem também nutrir vínculos afetivos. Assim, nosso trabalho na escola pode nos trazer: sentimentos de valor, de auto-estima; sentimento de pertencimento a um grupo ou a uma comunidade; oportunidade de enriquecer nossa formação política, ética, estética ou espiritual. Sobre isso, André Lévy diz que, se a escola é projeto de ação (educar e ensinar) e não projeto de vida (realização pessoal), ainda assim ela é "um ambiente de relações pessoais e de trabalho, um sistema social e cultural ou, até mesmo, uma comunidade restrita. Na verdade, essas duas faces da organização coexistem e interagem." (Lévy, 2001:130)

Em resumo: a finalidade da escola, como organização, não é produzir calçados, vender roupas, curar doentes ou promover turismo. Seu objetivo é o ensino, a educação, a produção de idéias, a transmissão da cultura, da ética, enfim, a formação do cidadão. E todas as pessoas que ela reúne (alunos, professores, funcionários, pais, autoridades do sistema educacional, comunidade) estão, em grau menor ou maior, unidas por alguns laços comuns, mesmo que o dia-a-dia da escola seja perpassado por conflitos, por ausência de recursos materiais e humanos, além de outras dificuldades.

Fig. 42 _ Professoras-cursistas da UFJF em plantão pedagógico. Itacambira, out./2002.

Atividade 3

Assinale com um V as afirmações que são verdadeiras e com um F as falsas.

a ( ) A discussão do projeto político pedagógico não é parte do projeto de ação da escola, pois diz respeito à sua finalidade e não ao seu funcionamento.

b ( ) Os alunos, tanto quanto os professores e funcionários, fazem parte da escola, como membros de sua organização.

c ( ) Não existe diferença entre os objetivos organizacionais de uma escola e os de um supermercado.

d ( ) Um mutirão para angariar fundos a fim de reconstruir a cantina não é uma ação integrante da organização escolar.

 

Fonte

Texto que faz parte do Projeto Veredas Módulo 4 V. 2 - Unidade 1

 

Veja também:
A Escola como Instituição e Organização - Parte II
A Escola como Instituição e Organização - Parte III
A Escola como Instituição e Organização - Respostas