Centro de referência Virtual do Professor - http://crv.educacao.mg.gov.br

 

CRIADO EM: 22/04/2006
MODIFICADO EM: 22/04/2006
 : FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO - PENSANDO BEM ...


Amauri Carlos Ferreira

Bernardo Jefferson de Oliveira

 


Fig. 1 _ Oficina: "As Múltiplas Dimensões do Olhar" com Cursistas do UNIS. 4ª Semana Presencial do Veredas. Varginha, jul/2003.

Introdução

Olá!

Você certamente já ouviu falar da Filosofia como uma disciplina ou como um tipo de conhecimento. Talvez você nunca tenha feito um curso de Filosofia nem a tenha estudado de forma sistemática, mas provavelmente já discutiu várias questões tratadas por ela, ainda que sem saber que eram questões filosóficas.

Além disso, no dia-a-dia, faz-se referência à Filosofia com expressões como "minha filosofia de vida", "isso não passa de vã filosofia", ou "filosofia de botequim". Mas, afinal de contas, o que é Filosofia? E por que a Filosofia da Educação é considerada tão importante na formação dos professores?

É disso que vamos tratar aqui. Vamos discutir sobre o papel da reflexão crítica e dos fundamentos da Educação. O propósito é praticar um pouco desse exercício mental e ponderar sobre os pressupostos de nossa atividade educativa, seja como professor, na escola, ou como cursista do Veredas. Para isso, vamos ter que retomar alguns estudos feitos em outros módulos e também conhecer algumas idéias que vêm sendo debatidas ao longo da História da Filosofia.

Nosso roteiro de estudo para Filosofia da Educação é o seguinte: primeiro, nesta Unidade 1, examinaremos algumas das principais características da Filosofia: reflexão e argumentação racional.

Na Unidade 2, estudaremos a "epistemologia do professor". Discutiremos, as concepções de conhecimento, as diferentes noções de verdade e as realidades a que essas noções se referem na relação do sujeito com o saber.

Na Unidade 3, tratemos de questões da Ética e da moral. Vamos estudar alguns de seus conceitos básicos, visitar algumas formulações interessantes e refletir sobre os muitos desafios que estão lançados a todos os indivíduos, mas sobretudo aos educadores.

Por fim, na Unidade 4, discutiremos os limites da racionalidade e as propostas para seu alargamento. Refletiremos sobre o dogmatismo e sobre a dificuldade de viver sem certezas. Você conhecerá a chamada "crise da razão" e poderá se situar no debate atual em torno das alternativas que vêm sendo colocadas.

Esta unidade está dividida em três seções:

A primeira, intitulada A Reflexão Filosófica, trata da origem da Filosofia e de seu caráter reflexivo. Veremos o que caracteriza a reflexão filosófica e analisaremos um trecho de uma bela crônica da escritora Clarice Lispector.

Na segunda seção _ "Por que sim" não é resposta! _ vamos analisar as exigências da argumentação racional. Veremos como os tipos de explicação variam nas diferentes formas de conhecimento, e como a racionalidade idealizada pela Filosofia grega foi incorporada na nossa cultura.

A terceira seção trata da relação entre a Filosofia e a Educação. A discussão sobre o pensar filosófico a partir de problemas torna-se central para compreender a Filosofia como fundamento da Educação.

Objetivos Específicos

Após o estudo desta unidade, esperamos que você seja capaz de:

- explicar as características da reflexão filosófica;

- identificar exigências da argumentação racional.;

- caracterizar a Filosofia da Educação a partir da compreensão do problema filosófico.

Texto Básico

Seção 1: A Reflexão Filosófica

Objetivo específico: explicar as características da reflexão filosófica.

Você já estudou, no componente curricular "Ciência e Realidade: fontes da pesquisa em Educação" (Volume 1 do Módulo 2), as diferentes formas de conhecimento que coexistem em um mesmo espaço e tempo, embora a origem de cada uma possa ser situada em épocas e mundos diferentes. Diferenciar essas formas nos ajuda a compreender suas características, seus usos, suas vantagens e suas limitações. Para avançar no estudo da Filosofia da Educação será importante retomar o que você já aprendeu. Vamos lá?

Atividade 1

Releia a Unidade 1 do Módulo 2 do componente curricular "Ciência e Realidade: fontes da pesquisa em Educação", especialmente o tópico "Conhecer pela Razão: a Filosofia e a Ciência", e cite algumas características da Filosofia diferenciando-a de outros tipos de conhecimento.

O que significa a palavra Filosofia?

As palavras também têm historia, e conhecer essa história (etimologia) nos ajuda a entendê-las. A origem da palavra Filosofia é grega. Compõe-se de Philo (ph tem som de f), cuja tradução é amizade ou amor + Sophia, que é sabedoria. Ou seja, originalmente, Filosofia queria dizer amor ao conhecimento ou busca da sabedoria. Ao longo do tempo, ela passou também a significar um tipo de conhecimento, uma visão de mundo, tornando-se uma disciplina.

Como forma de conhecimento, a Filosofia nasceu na Grécia antiga, na mesma época que a democracia. Ambas representavam uma dessacralização das tradições religiosas e das explicações míticas do mundo, ou seja, deixavam de considerar tais tradições e explicações como sagradas ou intocáveis.

Desacralizar significa reavaliar e discutir temas e opiniões que eram tidos como indiscutíveis. Isto é muito importante para a Filosofia, pois, em sua busca da sabedoria, ela combate dogmas, ideologias e crenças infundadas. Em vez de tomar como certas as explicações já consolidadas, ela vai questioná-las e averiguar suas razões.

Será que as explicações que nos deram sobre as origens e os princípios da realidade são mesmo verdadeiras? Será que por trás de experiências particulares, que ocorreram com você e com os outros, não há uma razão comum ainda que desconhecida, uma outra visão que pode ajudar a entender como as coisas ocorrem? Será que não haveria uma forma melhor de organizar a sociedade? Será que queremos manter os valores que serviram para educar as gerações que nos antecederam? Que razões temos para julgar algo como certo ou errado?

Essa postura interrogativa e crítica é um esforço de compreensão racional, que tem caracterizado a cultura ocidental. Por isso se diz que a Filosofia _ que disseminou essa postura _ é um dos pilares de nossa tradição cultural. Tal postura é renovada toda vez que buscamos encontrar o porquê e as razões de as coisas serem como são. Dizia Aristóteles que "é a admiração que leva os homens a filosofar. Eles admiram-se das coisas estranhas com que esbarram". Admirar-se com algo surpreendente, uma beleza excepcional, ou uma descoberta intrigante, que nos deixa perplexos! Para muitos pensadores, a experiência filosófica brota de experiências que todos temos ao longo de nossas vidas, como uma angústia que não nos dá sossego, ou como uma dúvida que desemboca num questionamento profundo, seja lá sobre o que for: o destino das coisas, o sentido da vida, os fundamentos do conhecimento, as características da Natureza, das dimensões humanas e os valores que lhes são dados em cada Cultura.

São muitas as maneiras de começar a indagar e de perceber que uma indagação leva a outra e que, por fim, somos levados a refletir sobre coisas em que não pensamos quando estamos imersos na lida diária.

O que é reflexão?

Todos os dias, todos nós refletimos um pouco sobre o que fazemos, sobre o que fizemos ou sobre o que poderíamos estar fazendo: "Tenho que parar o que estou fazendo, senão me atraso", "Ah! Se estivesse agora de férias". São situações cotidianas, mas que demandam uma abstração. Abstrair implica um distanciamento. Para nos concentrarmos num determinado ponto, deixamos os outros de lado. Ao refletir, focalizamos nossa atenção em algumas percepções ou idéias, como se fizéssemos uma pausa em nossas atividades e passássemos para uma outra esfera da vida, em nosso pensamento. Tentamos ver nossa ação como se estivéssemos de fora, como no reflexo do espelho, e passamos a examinar lembranças e especulações.

Refletir significa também voltar o olhar sobre si mesmo, pensar o pensamento. Descentrar (você se lembra de ter lido sobre a experiência de descentramento em Antropologia?) para examinar o lugar que ocupamos, colocando em questão o que já se conhece. Ao longo do Veredas, você já fez isso muitas vezes, não é mesmo?

Mas será que toda forma de reflexão é filosófica? Não! No dia-a-dia não refletimos de forma sistemática, registrando nossas idéias, retomando o caminho que estávamos percorrendo no ponto em que havíamos parado, tentando avançar em nosso pensamento, pois estamos mergulhados em numerosas atividades e afazeres que nos mantêm ocupados.

Um importante filósofo da Educação brasileiro, Dermeval Saviani, diz que a reflexão é filosófica quando é radical, rigorosa e de conjunto. Radical, pois deve ir até as raízes da questão, buscar seus fundamentos, operando em profundidade. Rigorosa, pois deve proceder de forma crítica e metódica, colocando em dúvida as conclusões da sabedoria popular e as generalizações que a Ciência afirma. E de conjunto, pois deve evitar abordar as questões de modo parcial. Deve, ao contrário, buscar uma perspectiva mais abrangente, relacionando o aspecto em questão com os demais aspectos do contexto em que está inserido.

Como essas características não fazem parte da maioria das nossas reflexões cotidianas, e, além disso, nos distanciam por algum tempo das percepções mais imediatas e concretas do dia-a-dia, a Filosofia é muitas vezes identificada como diletantismo ou "falta do que fazer". Por causa disso, de vez em quando se ridicularizam aqueles que se dedicam às indagações filosóficas dizendo que eles vivem no mundo da Lua.

No entanto, será que é isso mesmo? O que você acha?

Atividade 2

Escreva se você julga que a Filosofia é realmente importante ou não, mas justifique sua resposta explicando por que você pensa assim.

Eis uma passagem de Clarice Lispector que ilustra algumas das características da reflexão filosófica a que nos referimos.

Divagando sobre tolices

Depois de esporádicas e perplexas meditações sobre o cosmos, cheguei a várias conclusões óbvias (o óbvio é muito importante: garante certa veracidade). Em primeiro lugar concluí que há o infinito, isto é, o infinito não é uma abstração matemática, mas algo que existe. Nos estamos tão longe de compreender o mundo que nossa cabeça não consegue raciocinar senão à base de finitos. Depois me ocorreu que se o cosmos fosse finito, eu de

novo teria um problema nas mãos: pois, depois do finito, o que começaria? Depois cheguei à conclusão, muito humilde minha, de que Deus é o infinito. Nessas minhas divagações também me dei conta do pouco que sabia, e isso resultou numa alegria: a da esperança. Explico-me: o pouco que sei não dá para compreender a vida, então a explicação está no que desconheço e que tenho a esperança de poder vir a conhecer um pouco mais.

[...]

Espanta-me a nossa fertilidade: o homem chegou com séculos a dividir o tempo em estações do ano. Chegou mesmo a tentar dividir o infinito em dias, meses, anos, pois o infinito pode constranger muito e confranger o coração. E, diante da angústia, trazemos o infinito até o âmbito de nossa consciência e o organizamos em forma humana simplificada. Sem essa forma ou outra qualquer de organização, nosso consciente teria uma vertigem perigosa como a loucura. Ao mesmo tempo, para a mente humana, é uma fonte de prazer a eternidade do infinito: nós, sem entendê-lo, compreendemos. E, sem entender, vivemos. Nossa vida é apenas um modo do infinito. Ou melhor: o infinito não tem modos. Qual a forma mais adequada pra que o consciente açambarque o infinito? Pois quanto ao inconsciente, como já foi dito, este o admite pelas simples razão de também sê-lo. Será que entenderíamos melhor o infinito se desenhássemos um circulo? Errei. O círculo é uma forma perfeita, mas que pertence à nossa mente humana, restrita pela sua própria natureza. Pois na verdade até o círculo seria um adjetivo inútil para o infinito. Um dos equívocos naturais nossos é achar que, a partir de nós, é o infinito. Nós não conseguimos pensar no existo sem tomarmos como ponto de vista o a partir de nós.

Para falar a verdade, já me perdi e nem sei mais do que estou falando. Bem, tenho mais o que fazer do que escrever tolices sobre o infinito. É, por exemplo, hora do almoço e a empregada avisou que já está servido. Era mesmo tempo de parar. (Lispector,1999:291-2).

Fig. 2 _ Projeto "Pequenos Escritores". Alunos da Cursista Jussara Martins, da UEMG-BH. E.E. Barão de Macaúbas, Belo Horizonte.

Atividade 3

A) Analise o texto de Lispector e diga se ele se caracteriza como uma reflexão filosófica.

Entre as alternativas seguintes, assinale aquela que, a seu ver, melhor explica por que a divagação de Clarice é ou não é uma reflexão filosófica.

a ( ) Não é bem uma reflexão filosófica porque é feita por uma escritora/artista e, como ela não está preocupada em investigar de maneira sistemática o problema com que defronta, escreve visando à diversão, ironizando sua própria reflexão.

b ( ) É uma reflexão filosófica por que tenta compreender e explicar racionalmente não só cosmo e o infinito, mas também se debruça sobre suas próprias condições de conhecimento.

c ( ) Parece ser uma reflexão filosófica, pois fica viajando em divagações sem qualquer utilidade prática para a vida e se perdendo em conceitos abstratos.

d ( ) Sem dúvida é uma reflexão, mas não é filosófica, pois não é coerente, já que a autora muda várias vezes de opinião e abandona suas conclusões. Tampouco é rigorosa, pois lança perguntas para as quais não encontra soluções.

e ( ) Não pode ser considerada como Filosofia porque seus argumentos não têm provas, nem levam em conta a experiência concreta.

Vamos aproveitar suas impressões sobre esse texto para repensar algumas características da Filosofia.

· Não são apenas os filósofos que se preocupam com questões filosóficas. Uns mais profundamente, outros menos, todos nós o fazemos. A diferença talvez esteja no fato de que aqueles que estudam Filosofia procuram instrumentalizar-se com a história do pensamento filosófico e com os avanços das ciências para dar continuidade a essas reflexões, ao passo que, em geral, a maioria das pessoas não leva essas questões a sério. A ironia, com que Clarice caçoa de sua própria pretensão, é um traço comum a muitos filósofos.

· Ainda que de forma ligeira, o texto de Lispector nos leva a fazer indagações, buscando entender as raízes de algumas questões por meio do exame de conceitos (como o do infinito) que fundamentam nosso entendimento do universo (cosmos). O texto nos conduz à constatação de que nossa compreensão do universo depende de nossas faculdades intelectuais ("não conseguimos pensar no existo sem tomarmos como ponto de vista o a partir de nós"), que, por sua vez, estão vinculadas a questões existenciais ("sem essa forma ou qualquer outra forma de organização, nosso consciente teria uma vertigem perigosa como a loucura") e também avaliações de suas implicações ("isso resultou numa alegria: a da esperança").

· De fato, a autora vai percorrendo diferentes questões e tenta definir conceitos numa viagem sem resultado prático imediato ("tenho mais o que fazer do que escrever tolices"). Quando contrastada com atividades prementes, como a hora do almoço, tais especulações parecem divagações sem sentido. Em nossa cultura costumamos considerar que as coisas sem utilidade prática não têm muito valor. Vivemos numa época de negócios (negação do ócio), mas a Filosofia vem de uma época em que o ócio era visto como condição de estudo, de atuação política e de desenvolvimento espiritual. A palavra ócio equivale no grego a sxolé, donde se deriva escola. Ociosos eram os homens livres da necessidade do trabalho material para se dedicarem a especulação e às conquistas do espírito. O conhecimento filosófico já foi supervalorizado por ser contemplativo e não instrumental, mas, na nossa cultura, ele perdeu grande parte de seu status.

· Em relação à quarta alternativa, poderemos encontrar autores que considerem essa reflexão de Clarice como filosófica, não só pela temática, mas, sobretudo pela postura indagativa, questionadora, em que se busca o saber sem se contentar com as explicações encontradas. Uma coisa é mudar de opinião à toa, por causa da moda ou da mudança do vento, outra, bem diferente, é alterar a maneira de pensar porque, numa reavaliação, perceberam-se falhas no julgamento anterior. Mudanças de opinião fazem parte do processo de busca do conhecimento. O rigor aqui está na persistência da interrogação, não na precisão ou no consenso das respostas.

· No entanto, há outras perspectivas que discordam dessa posição. Há autores que diriam que esse texto da Clarice não chega a ser filosófico porque não aprofunda suas idéias nem leva em conta o que já se discutiu e se escreveu sobre esse assunto na História da Filosofia. Diferentemente do que ocorre nas Ciências Naturais, em que há um certo consenso sobre fatos e teorias vigentes, em Filosofia há muitas discordâncias sobre quais são as principais questões, critérios, estilos e referências. Mas, em geral, convive-se bem com diferentes perspectivas.

· Finalmente, sobre a última alternativa, vale a pena ressaltar que, em filosofia, argumentos convincentes são aceitos como provas, pois não há exigência de comprovação material ou experimental, como nas Ciências. A reivindicação de provas que pudessem ser verificadas na prática (seja pela Matemática, por coleta de informações ou por repetição de um experimento) fez com que pensa dores do século XVII criticassem as especulações e as disputas filosóficas e começassem a definir os padrões do conhecimento científico moderno.

Na Modernidade, embora se contestassem certos aspectos da Filosofia, alguns outros foram saudados e preservados, como características que a Ciência _ esse novo e frondoso galho da árvore do conhecimento _ herdou do tronco de onde brotou. Dentre as principais características herdadas estão o esforço de compreensão e de explicação racional dos princípios de organização do mundo (como, por exemplo as leis naturais) e a valorização da autocrítica.

Até o século XIX, as ciências eram consideradas como uma forma de Filosofia. As pessoas que se dedicavam às questões que hoje julgamos pertencentes à Química, à Física ou à Biologia eram chamadas de filósofos naturais. Embora a Filosofia provenha de um tempo em que não havia a atual diferenciação entre as disciplinas, nos dias de hoje é comum tratar da Filosofia como uma disciplina entre outras. Mas, além da Filosofia não respeitar muito as fronteiras entre as disciplinas científicas, ela engloba também diversos assuntos como a Ética, a Política, a Estética, que as Ciências deixaram de lado. Por isso descreveu-se a reflexão filosófica como sendo de conjunto, lembra-se?

Até agora, viemos tratando da reflexão. Mas e a argumentação racional? Como ela pode ser caracterizada e por que ela é fundamental para a Filosofia e para as Ciências?

Seção 2: "Por Que Sim" Não É Resposta!

Objetivo específico: identificar as exigências da argumentação racional.

Há alguns anos, o programa "Castelo Ra-Tim-Bum" difundiu entre as crianças a idéia que respostas do tipo "Por que sim!" ou "Porque não!" _ aquelas que geralmente recebem de seus pais e professores _ não eram respostas satisfatórias. O lema era "porque sim não é resposta!" e aí pronto: pais e professores se viam obrigados a dar maiores explicações. Isto significava um trabalho extra: argumentar, expor as razões e, eventualmente, expor a fragilidade dos motivos.

Uma explicação é considerada como satisfatória quando é razoável, isto é, quando demonstra um raciocínio aceitável. Para tanto, o raciocínio deve ser demonstrado, como fazemos quando afirmamos: "Considero essa idéia boa, pelo seguinte motivo..."; "Imagino que aquela seja a melhor atitude, porque senão ocorrerá o seguinte..."

Ao serem explicitados, os argumentos podem ser examinados por aqueles que estiverem envolvidos na conversa. Eles podem encontrar defeitos na argumentação e pedir mais explicações. Mas repare como já está suposto que os interlocutores têm a capacidade de raciocinar, independentemente de seu poder ou status social. E é justamente essa capacidade que é o mais importante nesse contexto. A autoridade está na razão, na lógica que se utiliza no raciocínio, e não na importância de quem fala. Em vez de se subordinar ao tamanho, à importância ou à beleza de quem fala, obedece-se às regras do discurso racional que exigem o exame das razões que se apresentam. Ao contrário, na situação do "por que sim!", dispensa-se uma explicação por respeito, medo ou preguiça, deixando-se convencer sem maiores questionamentos.

Atividade 4

Leia as frases seguintes e assinale com um L as que apelam para a autoridade do locutor e com um R, aquelas que demandam obediência à razão.

a ( ) Quem é você para contestar o que eu estou dizendo?

b ( ) Sou forçado a admitir que seu raciocínio está correto.

c ( ) Aceite o que digo, pois você tem muito menos experiência que eu.

d ( ) O autor desse livro é um pensador famoso e não iria se enganar.

e ( ) Pelo que posso perceber, ele está se contradizendo.

f ( ) A decisão está correta pois foi o que a maioria das pessoas escolheu.

g ( ) Há de concordar que tais medidas terão determinadas implicações.

Em geral fala-se em argumento de autoridade para os casos de submissão ao poder de quem está falando (ou em nome de quem esta sendo dado o comando), pois se considera que a razão é algo natural e universal, ou seja, comum a todos. Veremos, na quarta unidade de Filosofia da Educação, como a idéia de um padrão único e universal de razão veio sendo questionada. Ao longo do último século, a razão passou a ser vista como um tipo de padrão cultural, difundido ou imposto a outros povos. Mas, até então, a idéia que vigorava é que nós, seres humanos, somos animais racionais, isto é, a razão é o que nos distingue dos outros animais. Sendo assim, seguir os critérios racionais não é se submeter a uma autoridade externa, mas usar nossa inteligência e autonomia.

Pelos exemplos da Atividade 4, você pode perceber como se usa da autoridade do locutor em muitas das situações escolares. Especialmente nas relações em que a noção de igualdade não está subentendida, é comum ouvir a pergunta intimidadora: "Você sabe com quem está falando?!" Mesmo em textos científicos, embora se deva evitar o argumento da autoridade, vemos que, muitas vezes, citam-se alguns autores famosos apenas como uma forma de dar maior respaldo ao que estamos querendo dizer.

Mas no discurso racional, o que conta mesmo são os argumentos: se são coerentes (lógicos) e consistentes (com pressupostos e conceitos bem fundamentados). A exigência é de um discurso disciplinado. Uma intuição ou idéia genial, mas indizível, nunca foi considerada como Filosofia. Uma convicção profunda, como a fé, ou uma habilidade de expressar impressões em sons, movimentos ou cores, como nas Artes, não são consideradas como um saber filosófico se não se apoiarem em argumentos lógicos. O verdadeiro conhecimento das coisas deveria ser demonstrável, apresentando a seqüência dos raciocínios e um uso disciplinado de conceitos. Essa era uma das idéias que Sócrates, um dos pais da Filosofia, fez valer de uma maneira muito hábil. Sócrates se diferenciava dos outros sábios de sua época (século V a.C.) por afirmar "sei que nada sei", mas, ao ouvir as explicações que eram dadas, mostrava que elas estavam equivocadas e mal fundamentadas. Provava então que os sábios ainda sabiam menos que ele, pois estavam iludidos com seus conhecimentos. Em geral, ele não apresentava nenhuma explicação (dizia que não tinha), só mostrava por que as explicações dos outros eram falhas. Esse era um bom artifício para, através do diálogo, levar os outros a se darem conta das limitações de seus conhecimentos e envolvê-los na busca racional da verdade.

Atividade 5

A máxima socrática _ "Sei que nada sei" _ revela que a atitude da Filosofia é uma atitude de:

a ( ) resignação, pois é muito difícil saber tudo.

b ( ) dúvida, pois ninguém está certo de coisa alguma.

c ( ) busca, pois a verdade está sempre em processo.

d ( ) implicância, pois só está querendo criticar.

Quando esses critérios racionais foram admitidos como sendo os corretos, os que correspondem à melhor característica dos humanos _ o raciocínio _, as outras formas de conhecimento, como as narrativas míticas, religiosas, técnicas, artísticas e o senso comum, foram perdendo o prestígio. A ambigüidade de seus símbolos e das palavras que usamos em nossas conversas diárias foi percebido como fonte de equívocos e de confusão. Por isso se defende que, em vez de termos e noções fluidas, o discurso filosófico controlado deve usar conceitos precisos.

Você se lembra de ter estudado sobre os símbolos e de como eles são arbitrários, isto é, sem uma relação direta com o que está sendo representado. Pois os conceitos são uma forma de restringir essa variabilidade e definir melhor uma noção, dando mais precisão ao significado. Tome como exemplo a palavra "classe". Ela pode significar, entre outras coisas, o espaço de aula, a elegância de alguém ou sua vinculação social. Mas se quisermos dar um determinado sentido, nos referimos a uma formulação especifica _ por exemplo, a que Karl Marx lhe deu em seu livro O capital. Para ele, a classe é definida pelo papel que seus integrantes desempenham na produção econômica: os que vivem de um salário formam a classe operária, ao passo que os que vivem principalmente de lucros, juros e rendimentos formam a classe dos capitalistas.

Todavia, também empregamos esse expediente na conversação cotidiana e em outras formas de expressão. Veja um bom exemplo de atribuição de conceitos na poesia "Morte e Vida Severina" de João Cabral de Melo Neto: O meu nome é Severino, não tenho outro de pia. Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar Severino de Maria; como há muitos Severinos com mães chamadas Maria, fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias. Mais isso ainda diz pouco: há muitos na freguesia. Como então dizer quem fala ora a Vossas Senhorias? Vejamos: é o Severino da Maria do Zacarias, lá da serra da Costela, limites da Paraíba. Mas isso ainda diz pouco: se ao menos mais cinco havia com nome de Severino filhos de tantas Marias mulheres de outros tantos, já finados, Zacarias, vivendo na mesma serra magra e ossuda em que eu vivia. (...) E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina: que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia. (Melo Neto, 1963:107-108).

Atividade 6

No texto de Melo Neto, há dois processos de restrição de significação, em que nomes e acontecimentos vão sendo adjetivados e redefinidos. Identifique-os e apresente suas definições:

Os usos de conceitos e da lógica não são exclusivos da Filosofia ou da Ciência. Nas artes, nas técnicas, nas religiões e no conhecimento comum também nos valemos deles. Só que nesses casos não são uma exigência fundamental, cuja observância é sempre examinada. Por outro lado, vemos que, embora a Filosofia e a Ciência tenham como modelo o discurso conceitual e a lógica da argumentação, elas também lançam mão de metáforas, de analogias e de outras formas de associação de idéias e de representação simbólica.

Seção 3: A Filosofia da Educação

Objetivo específico: caracterizar a Filosofia da Educação a partir da compreensão do problema filosófico.

Com o passar do tempo, a Filosofia foi se especializando: há cursos e programas que se dedicam à Filosofia da Educação, à Filosofia da Ciência, à Filosofia da Arte e outras mais. Mesmo nessas especializações se busca manter uma visão geral da qual as ciências particulares se desinteressaram. Além disso, ela se volta quase sempre para problemas que não são práticos. Assim, em vez de pesquisar, por exemplo, os fatores que interferem na repetência, ou de buscar uma nova metodologia de ensino, os estudos em Filosofia da Educação estão voltados para questões mais gerais, como os valores que têm pautado a Educação, os fundamentos do conhecimento e coisas do gênero.

Se você consultar um livro de Filosofia da Educação provavelmente vai encontrar uma série de assuntos e questões que você já estudou em vários módulos do Veredas: Cultura e Natureza Humana, que você viu em Antropologia; relações de poder e problemas de alienação, de ideologia e os desafios da cidadania, que você viu em Política e Educação; em Psicologia você já estudou as relações entre sociedade e indivíduo; em Artes, focalizou a imaginação e os meios de comunicação; em História conheceu as diferentes visões sobre a Educação ao longo do tempo, assim como já discutiu criticamente a formação, a história e as funções da instituição escolar. Enfim, você já tratou, por ângulos diferentes, diversas questões às quais a Filosofia da Educação se dedica por meio da reflexão.

O pensar a partir de problemas é a atividade principal da reflexão filosófica. Mediante esta atividade, situamos o ser humano no mundo e o compreendemos nesse lugar incômodo da dúvida. Aquele que em seu caminho utiliza a pergunta como forma de conhecer, aprende no percurso de sua existência a refletir sobre o que já passou e a atribuir forma ao conteúdo do vivido. É como se fosse o escultor que, com seu formão, esculpe as formas que representam seu desejo.

A disciplina Filosofia da Educação é considerada como um dos fundamentos da Educação e, por isso, os estudantes de Pedagogia cursam em geral essa disciplina no início do curso. No Veredas, ela vem no módulo final, buscando refletir sobre os estudos feitos, analisar alguns de seus pressupostos e implicações, analisar as contribuições dos diferentes saberes e explicitar o significado desses aprendizados.

Da mesma forma que a Filosofia é questionada por ser pouco instrumental e operativa, também a Filosofia da Educação não apresenta receitas de soluções práticas para os problemas da Educação e, menos ainda, conclusões definitivas.

Assim, a reflexão filosófica _ tal como a pesquisa científica, pois ambas são conhecimento pela razão _ exige a formulação do problema. Todo problema surge a partir de uma necessidade. Assim o primeiro passo para entender a Filosofia é estabelecer o problema. Aprender a filosofar a partir do fenômeno educacional leva-nos a refletir sobre problemas que estão latentes no nosso cotidiano. Dessa forma, um fato ocorrido em sala de aula (por exemplo, uma briga entre alunos) é um problema da prática, que exige solução imediata, mas não constitui um problema filosófico (nem de pesquisa, como você já estudou). Entretanto, se indagarmos a respeito do que é a violência e de suas causas, estamos diante de um problema filosófico (ou científico). Se pensarmos a respeito da gravidez de jovens e formularmos perguntas em torno de problemas centrais (como: o que é a sexualidade? o que é a juventude?), buscaremos teorias sobre estes problemas, o que permitirá compreendemos melhor o fato. Não para alterá-lo, mas para, quem sabe, ao intervir em outros momentos, tenhamos fundamentos para a ação. As perguntas que exigem fundamentos são mais importantes que as respostas, e constituem a essência do filosofar. O filósofo Immanuel Kant afirmava que "não se ensina Filosofia, ensina-se a filosofar".

Immanuel Kant (1724-1804) _ Considerado um dos maiores filósofos da idade moderna. Professor em Könisberg, cidade da qual nunca saiu. Dedicado aos estudos filosóficos. Suas obras se destacam pelo rigor e profundidade. Dentre elas destacam-se: A Paz Perpétua, A Crítica da Razão Pura, A Crítica da Razão Prática, A Crítica do Juízo. Há um texto sobre a Educação que discutiremos na última unidade, aguarde.

Mas como é possível filosofar, a partir da formulação do problema? Isto indica que cada um de nós, ao indagar a respeito de um determinado assunto, está na direção de um problema filosófico, que nasce de uma necessidade objetiva. Assim, a noção de problema, na Filosofia da Educação, é de suma importância. Para o filósofo, E. Brehier "todo problema [...] surge na medida em que o espírito se vê numa situação intermediária entre a ignorância e o saber". Quando assumimos uma atitude reflexiva frente à realidade aceitamos o desafio da reflexão.

Neste sentido, é sempre bom ressaltar que a compreensão do problema não muda o fato, nem o mundo. A compreensão do problema não quer dizer uma mera reunião de informações, mas sim o processo de entender a solução dada, seja pela intervenção na realidade, seja na compreensão dos textos de autores. Desta forma, quando se propõe filosofar é preciso estar na direção do problema, para que as respostas provisórias surjam e daí se compreenda melhor o fato.

Atividade 7

Retorne ao texto "Gestão Democrática: Gerando uma Nova Cultura na Escola" _ Módulo 4, Volume 2) e releia a Seção 1: "A Escola e o Sistema de Ensino: possibilidades de uma relação democrática" (p.150-6). Formule um problema sobre esse tema e dê uma resposta provisória com base nas teorias apresentadas no texto.

Caro cursista, nossa atividade nesta seção voltou-se basicamente para a compreensão do significado do problema e da reflexão filosóficos. Como somos educadores, lidamos cotidianamente com problemas pontuais, ou seja, problemas práticos. Para filosofarmos a partir de nossa prática pedagógica, é necessário pensar a partir de problemas teóricos. Assim, ao ler um texto, devemos buscar o problema proposto pelo autor. Entender um autor é ver sua Filosofia argumentada mediante respostas provisórias, o que nos permite buscar o problema que o autor apresenta. Estamos falando de tema e tese. O tema é o assunto, ou "aquilo do qual ou sobre o que o autor fala". A tese é o que o autor deseja provar, expressa em uma ou mais proposições afirmativas. As teses filosóficas são as soluções de problemas levantados a partir da própria necessidade.

Atividade 8

Leia o texto abaixo e estabeleça o tema, a tese e os problemas que o autor se propõe resolver.

Ensinar e Aprender

Por que ensinar é mais difícil do que aprender?

A razão é porque aquele que ensina deve possuir uma maior soma de conhecimentos e tê-los sempre à sua disposição. Ensinar é mais difícil do que aprender porque significa "fazer aprender".

Quem ensina de verdade nada mais faz que aprender o próprio aprender. Por isso mesmo é que sua ação muitas vezes desperta a impressão de que junto dele propriamente não se aprende nada.

Acontece que, então inconsideravelmente se entende por aprender unicamente a aquisição de conhecimentos utilizáveis. Quem ensina não ultrapassa os aprendizes senão no seguinte: ele deve aprender muito mais do que eles, uma vez que deve aprender a "fazer aprender". Quem ensina deve ser capaz de ser mais dócil do que quem aprende...

Se hoje, quando tudo se mede de acordo com os níveis mais baixos _ como por exemplo o lucro _ ninguém mais deseja tornar-se mestre, isto sem dúvida se deve às implicações dessa grande coisa e à sua própria grandeza. Sem dúvida, também semelhante aversão está ligada àquilo que dá mais o que pensar. Devemos conservar muito bem sob o nosso olhar a verdadeira revelação entre quem ensina e quem aprende, se quisermos que no desenrolar desse curso, desperte uma aprendizagem.

Nossa tentativa aqui é a de ensinar a pensar. (Heidegger, 1967:69).

A) Tema:

B) Tese:

C) Problemas:

Vamos recapitular o que você aprendeu neste texto?

Nesta unidade você pôde aprofundar um pouco os estudos sobre a Filosofia da Educação. Vários temas e conceitos foram discutidos. Vamos relembrar alguns deles:

A postura interrogativa e crítica é uma das grandes contribuições da Filosofia à nossa tradição cultural;

· Para a Filosofia, a busca da verdade passa pela dessacralização e pelo combate aos dogmas e crenças infundadas;

· As teorias e posições filosóficas devem apresentar a seqüência dos raciocínios e um uso disciplinado de conceitos;

· Os conceitos são uma forma encontrada para restringir a ambigüidade da linguagem, dando mais precisão ao significado das palavras;

· A Filosofia da Educação procura refletir sobre os problemas educacionais de forma radical, rigorosa e de conjunto;

· A Filosofia da Educação não apresenta receitas de soluções práticas para os problemas da Educação e, menos ainda, conclusões definitivas.

Como toda conclusão em Filosofia é ponto de partida para uma nova etapa, convidamos você, Cursista, a refletir sobre o seu próprio fazer educacional a partir de sua prática pedagógica.

Bibliografia

BRÉHIER,E. Le Probleme en philosophie. In: Ètudes de Philosophie Moderne. Paris: Minuit, 1970.

CHAUÍ, M. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 1998.

HEIDEGGER, M. Qu'appele-et-on penser? Paris: Press Universitaries de France, 1967.

MELO NETO, J. C.de. Morte e vida Severina e outros poemas em voz alta. Rio de Janeiro: 1963.

LISPECTOR, C. A descoberta do Mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

SAVIANI, D. A Filosofia na formação do educador. In: ___ Educação: do senso comum à consciência filosófica. São Paulo: Cortez, 1989.

Texto de Referência

Indicação Bibliográfica

PLATÃO. A República _ livro VII. In: GADOTTI, M. História das Idéias Pedagógicas. São Paulo: Ática, 1995. pp. 34-37

Roteiro de Atividades

Com base na leitura desse trecho do diálogo platônico, podemos ver que a busca da verdade traz consigo uma série de implicações políticas e educacionais, além de dificuldades físicas, psicológicas e escolhas de estratégias adequadas para melhor compreender a realidade.

Faça uma análise do processo de ensinar e aprender com base nesse texto de Platão.

 

Fonte

Texto que faz parte do Projeto Veredas Módulo 7 V. 1 - Unidade 1

 

Veja também:
A Filosofia da Educação - Pensando Bem... - Respostas