Centro de referência Virtual do Professor - http://crv.educacao.mg.gov.br

 

CRIADO EM: 09/04/2006
MODIFICADO EM: 09/04/2006

: OS PROFESSORES E A PROFISSÃO DOCENTE - PARTE II


Luciano Mendes de Faria Filho

Seção 3: As Ações Sociais e Políticas dos Professores: da Feminização à Ação Sindical

Objetivo específico: identificar os professores como sujeitos socioculturais e suas ações políticas na sociedade brasileira contemporânea.

Conforme você deve ter respondido na última atividade da seção anterior, várias são as razões que levam cada um de nós a escolher esta ou aquela profissão. São todas razões importantes, mesmo quando podem parecer insignificantes. Assim também, várias foram as razões que levaram a profissão docente a passar de uma profissão de homens para uma profissão de mulheres. Nem sempre é possível sintetizar todas num texto curto e, por isso, vamos apontar alguns fenômenos mais marcantes no que se refere a este processo.

Em primeiro lugar, uma das razões para a feminização do magistério parece estar no próprio processo de profissionalização desta ocupação. Explicamos. Conforme vimos há pouco, no decorrer do século XIX, a instituição escolar veio se tornando complexa, expandindo-se e ocupando um tempo cada vez maior dos professores e dos alunos. Uma vez que passava a ocupar mais tempo dos professores, começou a ficar cada vez mais difícil para as pessoas conciliar o magistério com o exercício de outras ocupações, como até então era muito comum, conforme vimos na primeira seção desta unidade.

Esta conciliação do magistério com outras ocupações, que ocorria, também, por causa do pequeno salário recebido pelos professores, passou, com o decorrer dos anos, a ser proibida pela legislação, que requeria a presença mais sistemática do professor na escola. Como fazer, se o salário de professor não dava para sustentar a família, e o professor não podia exercer outra ocupação? A solução, para muitos homens, parece ter sido, num primeiro momento, deixar o magistério e, num segundo momento, evitar engajar-se nessa profissão.

Por outro lado, um dos motivos que levaram as mulheres ao magistério está relacionado justamente à questão da organização do tempo escolar. Veja só: aos homens _ lembre-se de que na sociedade machista do século XIX, cabia ao homem prover a família dos bens necessários à sobrevivência _ não era possível conciliar a docência com outras ocupações como lavrador, farmacêutico, tropeiro, comerciante, dentre outras, em decorrência mesmo da natureza destas últimas. No entanto, à maioria das mulheres era possível conciliar as atividades domésticas _ cuidar da casa, dos filhos, do esposo _ e dedicar-se ao magistério, mesmo que isso fosse feito à custa de uma enorme sobrecarga de trabalho. Assim, a idéia de que o magistério ocupa apenas meio período do dia, mesmo que isto não seja verdade _ lembre-se do planejamento de aulas e da correção de trabalhos dos alunos _, acabou por justificar a presença das mulheres nessa profissão.

Outro fator relacionado à feminização é o lugar que vinha sendo defendido para as mulheres na educação da infância. Muitos argumentavam que a mulher, naturalmente, é mais capaz e mais preparada para cuidar das crianças. Tal afirmação, numa sociedade que contava com um índice muito alto de mortalidade infantil, soava como boa música aos ouvidos daqueles que defendiam a superioridade masculina no trato com as coisas públicas, e o lugar da mulher como sendo o recanto do lar.

Acontece que, ao longo do século XIX, médicos, literatos, políticos, bacharéis, dentre outros, vinham defendendo com muita força que uma das maneiras fundamentais de bem educar a infância era bem educar a mulher. Diziam que se o primeiro cuidado, o da mãe, era fundamental para a saúde física, moral e intelectual da criança, não era mais possível deixar a mulher sem um mínimo de educação e de instrução, pois, somente assim, ela se tornaria capaz de realizar bem a tarefa que se lhe apresentava.

Desse modo, chegamos ao final do século XIX com um forte apelo pela educação da mulher e com uma forte representação de que ela é a melhor educadora da infância. Nessas circunstâncias, não foi difícil, num momento em que se expandia a escola, considerar com grande naturalidade, que as mulheres melhor se prestariam ao exercício do magistério.

Atividade 8

Um dos aspectos mais polêmicos da história da profissão docente é a consideração, por parte de alguns, de que a mulher tem, naturalmente, um certo dom, uma vocação para o exercício do magistério. Há quem considere, pelo contrário, que tal inclinação, se é que ela existe, não é natural e, sim, fruto de um aprendizado social a que as mulheres foram submetidas. E você, qual a sua posição em relação a essa polêmica? Dê sua opinião, fundamentando o seu ponto de vista.

Os estudos apontam ainda que, para a sociedade da época, o magistério era uma ocupação que, mesmo sendo realizada fora de casa, não denegria a imagem da mulher. Ou seja, considerava-se a docência como uma profissão segura, moralmente falando, para as mulheres. Além disso, as próprias Escolas Normais contribuíam para a produção e divulgação dessas imagens do magistério. Não eram elas também ambientes seguros, muitas vezes organizados e geridos por instituições religiosas, oferecendo uma formação que também se estendia para a preparação de boas mães, esposas e donas de casa?

A feminização do magistério está, também, relacionada à presença, ou não, das meninas no universo escolar. Assim, se em Minas Gerais, em 1839 havia 589 meninas freqüentes em escolas para o sexo feminino, em 1885, as meninas já somavam 7.274, fenômeno que trouxe mudanças significativas para a composição do magistério primário, uma vez que, em regra, apenas as mulheres podiam dar aulas para as meninas.

Como muito já se chamou a atenção, o fato de as meninas entrarem na escola não significou terem a mesma instrução que os meninos. Tanto do ponto de vista legal como da política mais geral da instrução, tinha-se muita clareza que o ensino escolar, para meninos ou meninas, deveria ser diferenciado. Dizia o presidente da província mineira, Francisco José de Sousa Soares d'Andrea, em 23/03/1843,

Na instrução primaria só se deve ensinar, quanto for indispensável á todas as classes para os usos ordinários da vida, e para preparo de mais elevada instrução (...). Devem os Mestres ser capazes de ensinar aos meninos o seguinte. Ler, escrever, contar as quatro primeiras operações da Arithmetica, quebrados, raízes quadradas, e proporções(...) (cita alguns ensinamentos práticos, como os de pedreiro). As Mestras ás Meninas: devem ensinar-lhes tudo quanto convém que saiba uma mulher, que tem de ser a criada de si, e de seu marido; por isso a sua educação deve limitar-se a saber ler, escrever, e contar até as quatro primeiras operações de Arithmetica, e todos os mais trabalhos de uma mulher no interior de sua casa.

A respeito de todo este processo de que estamos falando, leia, a seguir, um pequeno trecho que fazia parte da justificativa do Regulamento da Instrução adotado, em Minas Gerais, a partir de 1906. Dizia o então secretário do Interior:

O regulamento estabelece a preferência da professora para o ensino primário _ é um meio de abrir à mulher uma carreira digna e proporcionar-lhe o ensejo de ser útil à pátria.

A mulher melhor compreende e cultiva o caráter infantil, e a professora competente é mais apta para a educação sem corrupções do coração e sem degradações do caráter.

Acresce que a professora com mais facilidade sujeita-se aos reduzidos vencimentos com que o Estado pode remunera o seu professorado.

Veja você quão sincero era o secretário! Ele não esconde que o salário era baixo e nem que esta era uma razão de estarem preferindo as mulheres para o magistério, não é mesmo? No entanto, além da sinceridade do secretário, este pequeno trecho nos traz outras informações: ele fala do magistério como uma carreira digna e da superioridade feminina na educação da infância. De certa forma, este pequeno texto sintetiza algumas das razões que vínhamos listando para explicar a feminização do magistério, você não acha?

Finalmente, é necessário considerar que, independentemente das escolas normais ou do que dizia ou deixava de dizer a boa sociedade, para muitas mulheres, o magistério foi a forma encontrada de, sozinha ou acompanhada, sustentar a sua, às vezes, muito numerosa família. Disso não podemos esquecer: a maioria das mulheres entraram no magistério porque precisavam de um trabalho para sobreviverem, algo sempre muito normal entre as mulheres das camadas mais pobres da população. Assim, a feminização do magistério pode ser entendida, também, como uma das conseqüências da crescente participação das mulheres na vida social, cultural e econômica das sociedades modernas.

Atividade 9

De acordo com o estudo desta seção, assinale com X as alternativas que completam a frase seguinte, de modo a formar uma afirmação verdadeira.

A feminização do magistério, diz respeito a um fenômeno:

a ( ) que ocorreu no Brasil, mas não em outros países do mundo.

b ( ) independente das discussões sobre o lugar da mulher na sociedade.

c ( ) que está relacionado à emergência das Escolas Normais.

d ( ) que foi desencorajado e dificultado pelo poder público.

e ( ) que teve início no século XIX e se acentuou no século XX.

O fato de o magistério ser exercido majoritariamente por mulheres é um aspecto dos mais marcantes da chamada identidade da profissão. A representação de que o magistério primário é profissão de mulher é tão forte que, desde o final do século XIX, os homens que a exercem são caricaturados como ultrapassados ou como efeminados. Muitos já disseram, desde o século XIX, que se um homem está no magistério, é porque não foi capaz de encontrar nada melhor para fazer.

Outra representação importante a ser destacada nesta seção em que estamos falando das ações sociais e políticas, é a de que o magistério é uma profissão fácil de ser exercida porque é de período parcial. Na verdade, a realidade de hoje desmente de imediato esta afirmação. Quantos não são os professores que têm que trabalhar dois ou três turnos, não é mesmo? Mesmo assim, não podemos esquecer que a idéia de que o magistério ocupa apenas parte do tempo diário do professor foi um componente importante no processo de feminização, lembra-se?

Para que possamos dar conta das ações sociais e políticas dos professores, é preciso, muitas vezes, romper o véu que encobre nossas atividades e nossa profissão. Em primeiro lugar, é preciso considerar que, historicamente, o professor sempre se ocupou de algo mais, além da própria sala de aula. Num primeiro momento dos modernos sistemas de instrução, conforme vimos, cabia ao professor, muitas vezes, não apenas lidar cotidianamente com os alunos, na sala de aula, mas também providenciar o aluguel da casa, adaptá-la para que nela pudesse funcionar uma escola, comprar os móveis e, muitas vezes, os parcos utensílios didáticos. Cumpria ao professor, ainda, muitas vezes, a função de recenseador, sendo responsabilizado pelo levantamento do número de alunos em idade escolar.

Fig. 29 _ Normalista (década de 30).

Às tarefas didáticas propriamente ditas, juntava-se, pois, um conjunto de outras necessárias ao estabelecimento e ao funcionamento da escola. Muitas vezes, os professores passavam meses e meses, até mesmo anos, cobrando do Estado o reembolso do pagamento do aluguel que eles, os professores, haviam efetuado ao proprietário do imóvel onde funcionava a escola.

Atividade 10

A) Cite pelo menos 4 atividades das quais vocês se ocupa cotidianamente em sua vida como professor e, a seguir, responda ao que se pede em B.

B) Algumas delas, em sua opinião, deveriam ser realizadas por outro profissional e não pelo professor? Se afirmativo, qual? Justifique a sua resposta.

Os professores mantêm as relações as mais diversas com os vários outros sujeitos sociais e com as diferentes instituições sociais que existem na sociedade. Eles se relacionam de forma particular e intensa com as famílias das crianças.

A relação entre a escola e a família é, ainda hoje, ou melhor, sobretudo nos dias de hoje, uma das mais palpitantes questões discutidas por pesquisadores e/ou gestores dos sistemas e unidades de ensino, em quase todo o mundo. Evidencia-o o número expressivo de pesquisas e publicações especializadas sobre o assunto, de um lado, e, de outro, a preocupação manifestada nos mais diversos fóruns (de reuniões escolares a fóruns nacionais e internacionais) com os profissionais responsáveis por gerir simples unidades escolares ou complexos sistemas nacionais de ensino.

Todos estes estudos e, mais ainda, a prática pedagógica dos professores e gestores da escola, põem em evidência um fato: a forma e a intensidade das relações entre escolas e famílias variam enormemente, estando relacionadas aos mais diversos fatores (estrutura e tradição de escolarização das famílias, classe social, meio urbano ou rural, número de filhos, ocupação dos pais...).

Constata-se, também, um outro elemento: seja devido a mudanças pelas quais nas últimas décadas tem passado a família, seja pelas constantes e, às vezes, radicais alterações observadas na escola ou pela conseqüente discussão (e incertezas) acerca do lugar dessas instituições na formação das novas gerações, observa-se hoje uma exaltação da necessidade de se estabelecer um efetivo diálogo entre a escola e a família.

No entanto, os professores e os gestores das unidades escolares alimentam, ainda, a ilusão de uma maior participação dos pais na escola, que seria resultado de uma ação formativa dessa instituição em relação à família. Centradas em uma visão escolarizada do problema, não põem em dúvida o lugar construído para e pela escola, em relação às demais instituições sociais, dentre elas a família.

É no interior deste debate que se inscreve, parece-nos, a preocupação dos historiadores da educação com o tema. No Brasil, ao longo do século XIX, a instituição escolar foi lenta, mas, inexoravelmente, fortalecendo-se como o locus fundamental e privilegiado de formação das novas gerações, estando diretamente relacionados a esse fato a expansão da escolarização e o processo de profissionalização do magistério primário, dentre outros fatores. Neste processo a escola desloca outras instituições (família, igreja,...) de seus lugares tradicionais de socialização, representando-as, no mais das vezes, como incapazes de bem educar, face a uma sociedade que se urbaniza e se torna complexa, que supõe novas dinâmicas e padrões de comportamento.

Estudos têm detectado também que, nas primeiras décadas do século XX, o afastamento da família da escola, resultante em boa parte da ação dos defensores e instituidores da escolarização, é uma preocupação constante destes mesmos agentes. Postados no interior de um campo que ganhava cada vez mais especificidade e legitimidade, os professores e outros agentes da educação, passaram a reclamar do desinteresse dos pais _ principalmente das camadas populares, mas não apenas destes _, para com a educação dos filhos.

Fig. 30 _ Revista do Ensino, nº 37, abril de 1956.

A partir de diagnósticos os mais variados, mas todos baseados na premissa de que, por um lado, é fundamental a participação das famílias na educação dos filhos mas que, por outro, estas demonstravam, naquele momento, um profundo desinteresse e despreparo para lidar com o assunto, buscava-se projetar e desenvolver ações que visavam a reaproximar a família da escola. No seu conjunto, em suas mais diversas elaborações, estas ações demonstram e acionam uma intenção educadora da escola em relação à família, entendida esta tarefa como um momento fundamental da ação reformista escolar face à realidade social mais ampla.

A ação da família é entendida como uma ação complementar à ação da escola e a ela subordinada. É subordinada porque desconfia-se da competência da família para bem educar; na verdade, no mais das vezes, afirma-se que a família não consegue mais educar os seus filhos. A esse respeito, o grande problema, segundo os professores, é que os pais não se interessam em participar da escola, pois dela estão afastados.

Como fazer, então, para interessar ou envolver a família na escola? Uma série de ações são propostas, as quais estão articuladas pela idéia de que cabe à escola um papel preponderante na reforma social visada.

Fig. 31 _ Revista do Ensino, nº 163, 1º semestre de 1976.

Mas é sobretudo quando se trata da "reforma" das camadas mais pobres da sociedade, particularmente no que se refere à higiene e à alimentação, que a dimensão reformadora da escola adquire maior consistência. Segundo um artigo publicado, em 1929, na Revista do Ensino*, "A escola não poderá ir diretamente auxiliar as classes pobres, facilitando-lhes meios de vida e provendo-as de alimentos. Mas poderá suavizar o mal, fornecendo regras de economia e de rendimento maior no trabalho."

Nessa cruzada reformista dos costumes e das pessoas, a mulher é identificada como sendo a grande responsável por garantir a boa ordem no lar e, sobretudo, por possibilitar que a família passe a incorporar, cada vez mais, referências escolares/escolarizadas de gerir o mundo doméstico e a educação dos filhos. Para isso, também, e sobretudo, as mulheres precisam ser reeducadas, pois para bem educar não basta amar, é preciso conhecer e compreender as necessidades infantis.

Assim, ao comentar uma conferência realizada na Alemanha buscando interessar os pais pela educação dos filhos (no lar e junto aos professores), a revista, pondo em circulação o artigo "A cooperação das família na educação", ao mesmo tempo em que reafirma a necessidade de amar a criança e saber compreendê-la, para poder orientá-la e conduzi-la, explicita o grande problema detectado nas relações com os pais:

É impossível educar nas escolas quando os pais de nossas alunas são eles próprios mal educados; por conseguinte, qualquer tentativa nossa para educar estas crianças as poriam em atrito com os pais e parentes, e, por meio destes, conosco educadores. (Revista do Ensino, 1926, p.207)

Como estamos vendo, muitas e muitas vezes os professores e técnicos da educação julgaram (e julgam) que devem educar, além das crianças, as próprias famílias. No entanto, quase nunca se perguntam sobre a dinâmica e a cultura familiar, por exemplo. A pergunta "como se relacionar com as famílias em pé de igualdade, considerando-as como instituições autônomas em relação à escola?" ainda precisa ser respondida pelos professores.

Atividade 11

Levando em conta a sua experiência como professor, você considera verdadeira a afirmação de que "a relação entre a escola e a família é, ainda hoje, ou melhor, sobretudo nos dias de hoje, uma das mais palpitantes questões discutidas pelos professores"? Justifique a sua resposta.

* Principal revista dedicada, em Minas Gerais, aos professores, entre 1925 e 1971.

Como estamos vendo, de forma pacífica ou conflituosa, os professores vêm fazendo a educação e, nesse fazer, entram em contato com as outras instituições. Sendo assim, podemos dizer que os professores vêm formando, ao longo deste último século, uma categoria que, por um lado, compartilha preocupações e interesses gerais com toda a população e, por outro, cultiva interesses que lhe são muito próprios. No entanto, algumas vezes é difícil distinguir tais interesses, pois, mesmo quando os professores estão lutando por objetivos específicos da categoria, como os salários, eles estão lutando por interesses gerais, como o de manter a qualidade do ensino, entre outros.

O fato é que, nos últimos 200 anos, o professorado mineiro, por exemplo, de uma categoria que reunia menos de uma centena de pessoas _ no início do século XIX _ passou a congregar mais de 200 mil, somente como servidores públicos. De imediato, salta aos olhos que esta categoria significa, de longe, o maior contingente profissional empregado pelo Estado. Assim, não é por acaso que, ao longo da História da Educação, haja um embate constante entre os dois lados, os professores e o Estado.

A princípio, no século XIX, o embate entre os professores e as estruturas do Estado se deu de forma muito fragmentada e individualizada. Na verdade, até os anos iniciais do século XX, em muito poucas ocasiões pudemos ver os professores agindo coletivamente em defesa de seus interesses. No início do século XX, de forma contraditória, os grupos escolares que foram construídos para dividir o trabalho docente, conforme vimos na unidade anterior, acabaram, também, por facilitar a aproximação entre os docentes que, até então, trabalhavam de forma isolada.

Nesta relação cotidiana de trabalho dentro dos grupos escolares foi, paulatinamente, desenvolvendo-se uma prática e uma consciência de interesses e direitos comuns entre os professores. Em Minas Gerais, no decorrer dos anos de 1909, 1910 e 1911, os professores se reuniram em congressos para discutir seus interesses e encaminhar reivindicações ao Estado.

Tivemos, no entanto, de esperar até 1931 para a criação da primeira Associação de Professores Públicos Primários de Minas Gerais. Essa entidade, que continua funcionando até hoje, foi, durante aproximadamente 5 décadas, quase a única porta-voz dos interesses dos professores perante o Estado.

Finalmente, um capítulo dos mais importantes nessa história é a reorganização do movimento sindical dos professores, que se deu no fim da década de 70 do século XX, em todo o Brasil. Naquele momento, a luta pela volta da democracia à sociedade brasileira tinha entre outras conseqüências, para o professorado, o aumento da democracia no âmbito das escolas e a luta por uma educação de melhor qualidade para todos. Tal bandeira de luta se concretizava nas propostas de realização de eleições para diretores das escolas públicas, na demanda de mais verbas para a educação, na realização de concursos, na melhoria dos salários e no reconhecimento de novos sindicatos _ como a UTE, por exemplo _ como representantes tão legítimos da categoria docente como outras associações já existentes.

Como podemos hoje perceber, muitas destas reivindicações lograram êxito e outras continuam na pauta de discussão dos professores. No entanto, não se pode negar que o professorado, ao longo destes últimos duzentos anos, contribuiu significativamente para a constituição, no Brasil, de uma sociedade escolarizada, onde todos possam ter acesso à escola, como um direito do cidadão. Os professores sempre lutaram por seus interesses, mas estes, em muitos momentos de nossa história educacional, estiveram relacionados também à luta por uma escola mais igualitária, mais democrática e de qualidade para todos.

Trabalhando com os alunos

Estamos chegando ao final deste módulo e queremos fazer-lhe um convite: continue refletindo sobre a ação dos professores na história. Assim, que tal você desenvolver, juntamente com seus colegas e alunos, uma pesquisa sobre os professores de sua cidade? Quem foram os primeiros professores? Onde se formaram? Como davam aulas? E, mais recentemente, como tem sido a participação dos professores nas lutas coletivas dos profissionais da educação? Para realizar esta atividade, você pode trabalhar com fotografias, documentos oficiais, jornais, depoimentos orais, dentre outras fontes interessantes, buscando envolver toda a comunidade escolar.

Assessoria de Comunicação Social
Fig. 32 _ Cartaz comemorativo do Dia Internacional da Mulher. SEE-MG, março de 2003.

Conclusão

Muitas vezes, na História da Educação, quiseram fazer-nos acreditar que os sujeitos mais importantes na história da escola eram os políticos e, sobretudo, os intelectuais da educação. Numa história feita por e para os intelectuais, pouco importava aos historiadores que o contingente mais expressivo da História da Educação _ os professores _ ficasse na penumbra. Nesta perspectiva histórica, a lembrança das grandes correntes teóricas acabava por colocar no esquecimento aqueles que, no dia-a-dia, faziam a escola e a educação escolar.

Nesta unidade buscamos argumentar e demonstrar que os professores são atores fundamentais da escola e das políticas de educação. Discutimos algumas representações de professores e procuramos colocar em relevo as ações desses profissionais relacionadas à constituição da escola e da própria profissão docente.

É preciso lembrar que os professores participaram ativamente da constituição da escola como instituição e da própria profissão docente como uma ocupação de fundamental importância nas sociedades modernas. Este aspecto não apenas realça sua participação na História da Educação, mas também explicita a responsabilidade destes sujeitos na conformação e na transformação da escola.

Como vimos, pelo menos no que se refere à educação elementar _ ou primária ou, hoje, fundamental _, há pelo menos um século a incumbência de ensinar tem sido assumida principalmente pelas mulheres. Vimos o quanto foi complexo o processo que transformou a profissão docente numa profissão feminina. No entanto, caberiam, ainda, muitas perguntas, como por exemplo: Por que, mesmo quando as mulheres já eram a maioria do professorado, a maior parte dos cargos técnicos e das posições de comando eram ocupadas por homens? Por que entre os teóricos da educação, até muito recentemente, poucas eram mulheres? Será que o fato de as mulheres constituírem a maioria do professorado deixou a educação escolar menos machista e sexista?

Dizer que os professores são os grandes atores do processo educativo escolar não quer dizer que eles agem sozinhos. O que seria da luta por mais e melhores escolas, por exemplo, se não fosse a mobilização das famílias e das comunidades? Mas o que seria, também, da luta pelo direito à educação se os professores não fizessem dessa, uma luta deles também, como categoria?

Por isso, dizíamos que não se pode negar que o professorado, ao longo destes últimos duzentos anos, contribuiu significativamente para a constituição, no Brasil, de uma sociedade escolarizada, onde todos pudessem ter acesso à escola como um direito do cidadão. Os professores sempre lutaram por seus interesses, mas estes, em muitos momentos de nossa história educacional, estiveram relacionados também à luta por uma escola mais igualitária, mais democrática e de qualidade para todos.

Bibliografia

APPLE, M. W. e TEITELBAUN, K. Está o professor perdendo o controle de suas qualificações e do currículo?Teoria e Educação, Porto Alegre, n° 4, 62-73, 1991.

RESENDE, F. M. e FARIA FILHO, L. M. História da política educacional em Minas Gerais no século XIX: os relatórios dos Presidentes de província. Revista Brasileira de História da Educação, São Paulo, 2, 79-116, jul./dez. 2001.

Texto de Referência

Indicação Bibliográfica

VILELA, H. de O. S. O mestre escola e a professora. In: LOPES, E. M. T. e FARIA FILHO, L. M. & VEIGA, C. G. (Org.) 500 anos de educação no Brasil. Belo Horizonte: Autêntica, 2000. p.95-101.

Roteiro de Atividades

Atividade 1

Com base no texto, cite pelo menos três características das escolas brasileiras do século XIX.

Atividade 2

Segundo a autora, "da mesma forma que no continente europeu, também aqui, àquela época, havia uma multiplicidade de formas locais de ensinar e aprender". Que formas eram essas?

Atividade 3

Baseado no texto de referência e em seus estudos de História da Educação responda: que relação podemos estabelecer entre a emergência dos sistemas estatais de ensino e o processo de profissionalização docente?

 

Fonte

Este texto faz parte do Projeto Veredas, Módulo 3, V. 4

 

Veja também:
Os Professores e a Profissão Docente - Parte I
Os Professores e a Profissão Docente - Respostas