Luciano Mendes de Faria Filho
Atividade 12
Se você pudesse
interferir profundamente no calendário escolar de sua escola, que
aspectos você mudaria? E qual seria o teor da mudança em cada um
dos aspectos?
A discussão sobre
os saberes escolares pode ser enriquecida pela integração dessa
análise com aquelas desenvolvidas nos textos de Identidade Cultural e
Sociedade e de Currículo, deste mesmo volume. Você poderá
ainda reler os textos do Eixo Integrador e dos Seminários de Ensino e
Pesquisa do Volume 1 deste Módulo 3, que também tratam das
características e da construção do saber escolar.
Intimamente relacionados
a essas duas dimensões que acabamos de ressaltar, ou seja, os
espaços e os tempos, estão os conhecimentos escolares. Muitas
vezes, somos levados a crer que tal ou qual conhecimento deve ser ensinado na
escola porque é importante, e pronto! É como se os
conhecimentos não tivessem a sua história. Ledo engano!
Os conhecimentos, todos eles, são históricos, e a sua
importância maior ou menor no currículo também tem uma
história. Eles não foram parar aí naturalmente;
alguém os conduziu até essa situação,
alguém os produziu como conhecimentos escolares.
Para que possamos ter uma
idéia de como os conhecimentos escolares mudam com o tempo, vamos dar
um pequeno exemplo ocorrido na história da Educação
mineira. Vejamos.
O programa de ensino
preconizado pela Lei nº 13 de 1835, a primeira que organizou o ensino na
Província de Minas Gerais, incluía "ler, escrever, a
prática das quatro operações, aritmética
até proporções e noções gerais de deveres
morais e religiosos" para os meninos, e "ler, escrever, a
prática das quatro operações aritméticas,
ortografia, prosódia, noções gerais de deveres morais,
religiosos e domésticos" para as meninas.
Já o programa de
ensino instituído pela reforma de 1906, implantado com a Reforma
João Pinheiro, englobava Leitura, Escrita, Língua
Pátria, Aritmética, Geografia, História do Brasil,
Instrução Moral e Cívica, Trabalhos Manuais, Canto,
História Natural, Física, Exercícios Físicos e
Higiene, distribuídos ao longo de um curso de quatro anos de
duração.
Enquanto o programa de
1835 ocupava quatro linhas de uma página, o programa de 1906 ocupava
nada menos que 28 páginas de um impresso oficial, especialmente
publicado com a finalidade de divulgá-lo. Só para podermos
dimensionar a proposta, veja como ficava o horário de aulas do
primeiro ano em 1906:

Podemos nos perguntar:
que mudanças teriam ocorrido na sociedade mineira que justificavam a
escolarização de "novos" conhecimentos na magnitude
observada? O que havia acontecido com a escola nesse período? É
preciso dizer, inicialmente, que várias podem ser as respostas, pois
vários são os fatores envolvidos nessa questão.
Por um lado, é
preciso considerar que houve uma importante mudança no lugar da escola
na sociedade. Foi no decorrer do século XIX que, no Brasil, a escola
foi produzida como instituição de fundamental importância
na cena social, sobretudo nos meios urbanos. Num projeto em que em se
engajaram variados sujeitos (professores, literatos, juristas,
políticos em geral, médicos, jornalistas) pertencentes a
diversos estratos sociais e grupos profissionais, a escola foi lentamente
sendo produzida como a instituição capaz não apenas de
instruir e educar a infância e a juventude, mas também de
produzir um país ordeiro, progressista e civilizado.
Por outro lado, é
preciso considerar a crescente complexidade da sociedade em que essa escola
estava inserida e _ por que não? _ que ela ajudava a construir.
Não por acaso, também no Brasil a defesa da escola para uma
parcela maior da população, ao longo dos dois últimos
séculos, esteve intimamente relacionada à
constituição do Estado nacional e da nação
brasileira.
À crescente
complexidade da sociedade brasileira e das funções demandadas
socialmente à escola, ou produzidas para ela pelos defensores da
escolarização, corresponde, por seu turno, uma complexidade
cada vez maior da escola como instituição. Como podemos ver, a
escola, os espaços, os tempos e os conhecimentos escolarizados mudaram
muito ao longo da história e, felizmente, continuam mudando até
hoje, não é mesmo?
Procuramos, nesta
unidade, tratar de algumas das dimensões dessa
instituição que se tornou complexa e se difundiu nos
últimos séculos. É dela também que continuaremos
a tratar nos textos, exercícios e sugestões de leituras que se
seguem e, sobretudo, na próxima unidade, em que focaremos a temática
da Organização do Trabalho Escolar.
Atividade 13
Depois de você ter
estudado um pouco da história das instituições
escolares, gostaríamos agora de convidá-lo a realizar uma
atividade muito interessante: que tal pesquisar a história da
educação em sua cidade e a de sua escola, em particular?
Aliás, quem sabe esse tema não poderia dar origem ao seu
problema de pesquisa, para a elaboração da Monografia?
No Volume 4 do Módulo
1, o texto de Sistema Educacional no Brasil aborda a questão da
organização dos tempos escolares, na LDB atual, focalizando
particularmente a organização em ciclos ou séries. Confira!
Conclusão
Nesta unidade, em
História da Educação, dedicamo-nos ao estudo da
história da instituição na qual trabalhamos: a escola.
Vimos o momento de fortalecimento e as condições sociais,
políticas, culturais e econômicas que propiciaram a
expansão da escolarização.
Estudamos, em primeiro
lugar, a emergência da escola como instituição social no
mundo ocidental. Vimos que foi sobretudo a partir dos séculos XV e
XVI, momento de expansão do comércio, das grandes
navegações, do renascimento da vida urbana e cultural, que a
defesa da escola começou a se fazer de forma mais veemente.
O fortalecimento e a
expansão da escola não se fazem, no entanto, de forma
tranqüila. Os conflitos sempre estiveram presentes. A escola desloca
outras instituições do centro da socialização,
particularmente a família, a Igreja e o mundo do trabalho. A cultura
escolar é outra, diferente daquela da família e da Igreja. O tempo
de freqüência à escola é um tempo
"roubado" à família e, sobretudo, ao trabalho.
Não é por
acaso, portanto, que o tempo da escola compete com outros tempos sociais.
Para que a criança permaneça na escola, é preciso que se
mudem as concepções acerca do lugar da criança na
sociedade e, sobretudo, que mesmo lentamente se vá proibindo o
trabalho infantil.
Nessa perspectiva, a
moderna noção de criança, que entende a infância
como etapa distinta da vida adulta e momento de formação, por
excelência, do sujeito humano, é, em boa parte, fruto da forma
escolarizada de conceber o mundo, as relações sociais e o
próprio ser humano.
Mas para que a escola se
configurasse numa instituição social distinta das outras, foi
preciso não apenas constituir o seu próprio tempo, mas
também construir o seu espaço simbólico e material no
seio da sociedade. Nas cidades, as escolas começam a competir, do
ponto de vista simbólico, com outros espaços e símbolos
tradicionais de educação e cultura. Constroem-se, agora,
não apenas os templos para veneração aos deuses, mas
também templos de culto ao saber.
Tais espaços, na
medida do desenvolvimento da escolarização, vão tomando
cada vez mais uma feição própria, com uma arquitetura
específica e uma simbologia particular. Neles, e por meio deles, a
cultura torna-se sinônimo de escolarização, e a
não-freqüência à escola passa a significar
ignorância e barbárie.
O nosso legado é,
portanto, o de uma instituição que nunca foi neutra, pois
sempre encarnou políticas e projetos sociais. Por isso, construir e
reinventar a escola implica _ não podemos esquecer _ articular os
nossos projetos pedagógicos com projetos sociais, políticos e
culturais mais amplos. São estes, afinal, que garantem a longevidade
ou não de nossas proposições.
Bibliografia
MATTOS, I. H. Tempos
de Saquarema. 2.ed. Rio de Janeiro: Acces, 1994.
Texto de Referência
Indicação
Bibliográfica
LOPES, E. M. T. &
GALVÃO, A. M. de O. História da Educação. Rio
de Janeiro: DP&A, 2001. p.15-24.
Roteiro de Atividades
Atividade 1
Segundo o seu ponto de
vista, o conhecimento de História da Educação pode
ajudar o professor a entender o momento presente da Educação
brasileira e atuar nele? Justifique a sua resposta.
Atividade 2
A) Por que as a autoras
afirmam que "o estudo da História da Educação
proporciona uma abertura semelhante àquela proporcionada pelas
viagens"?
B) Você concorda
com elas? Justifique a sua resposta.
Atividade 3
Com base no texto e em
seus conhecimentos, responda: quais as principais diferenças entre a
educação "geocêntrica" e a
educação "antropocêntrica", reabilitada pela
Renascença?
Fonte
Este texto faz parte do Projeto
Veredas, Módulo 3, V. 2
Veja também:
História das Instituições Escolares - Parte I
História das Instituições Escolares - Parte II
História das Instituições Escolares - Respostas
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