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- Temas Educacionais

CRIADO EM: 09/04/2006
MODIFICADO EM: 09/04/2006

: OS PROFESSORES E A PROFISSÃO DOCENTE - PARTE I


Luciano Mendes de Faria Filho

Fig. 25 _ Professores-cursistas em palestra na FAFILE. 3ª Semana Presencial do Veredas. Carangola, jan./2003.

Introdução

Caro Cursista:

Um dos aspectos fundamentais da História da Educação é a história dos sujeitos responsáveis por parcela significativa da construção da escola e da educação escolar: os alunos, os professores, os diretores, os inspetores e técnicos de ensino e os intelectuais da educação. Durante muitos e muitos anos, a História da Educação esteve voltada, quase exclusivamente, para estes últimos, os intelectuais, parecendo acreditar que eles eram os principais atores do fazer educativo escolar.

Nas últimas décadas, com o fortalecimento do movimento social dos professores, estes sujeitos têm se imposto à sociedade como os mais importantes atores na cena pedagógica. E a atuação deles não se restringe à sala de aula. Mais e mais, os pesquisadores têm descoberto que os professores são responsáveis não apenas pelo dia-a-dia da escola, mas que também pensam, projetam e participam da construção da educação em seus mais diversos níveis e em suas mais distintas dimensões.

Dessa tendência recente participam também os historiadores da educação, muitos deles também professores. Isto fez com que, na área da História da Educação, uma das temáticas mais pesquisadas nos últimos anos seja, justamente, a chamada história da profissão docente. A atenção, neste campo de estudo, tem-se voltado para aspectos os mais diversos da constituição histórica desta profissão.

Assim, tem-se pesquisado, sobre: a história das escolas normais e demais centros de formação de professores; o processo de constituição da própria profissão docente; as práticas pedagógicas dos professores em diversas épocas de nossa história; as práticas de leitura e de escrita de professores; a memória e história de professores dos diversos níveis de ensino; o processo histórico de transformação da profissão docente em uma profissão eminentemente feminina; as lutas sociais e políticas dos professores; a organização sindical docente, dentre muitos outros aspectos.

Dizíamos, na Introdução da segunda unidade (Volume 2 do Módulo 3), que para podermos melhor dimensionar e contextualizar nossas práticas e proposições, sejam elas relativas à sala de aula e à relação com os alunos, sejam relativas a toda a escola e à comunidade escolar, é bom que saibamos de onde veio e como vem-se organizando, historicamente, esta instituição chamada escola. Achamos que a mesma afirmação vale, também, para a própria profissão docente: é preciso que o professor conheça e cultive a memória e história da sua própria profissão, não é mesmo?

Acreditamos que cabe aos professores ajudar os alunos a cultivarem um interesse pela memória e pela história individuais e coletivas. Mas, como poderão fazer isto, se muitas vezes os próprios profissionais da educação não têm o hábito de pensar nessas dimensões de sua vida e de seu trabalho? Quantos de nós sabemos a história de nossa própria profissão? Qual importância damos a esse aspecto?

Sabemos que, na maioria das vezes, o desconhecimento da história de sua profissão não é responsabilidade apenas do professor; as próprias instituições e livros que o formaram _ e o formam cotidianamente _ negligenciam este aspecto. Foi pensando na necessidade de oferecermos elementos para uma reflexão sobre a história da constituição da profissão docente em nosso país, que organizamos esta última unidade de nosso curso de História da Educação.

Para organizar a sua leitura, o texto está dividido em três seções, que são as seguintes:

Ø Os professores na história

Ø A docência como profissão

Ø As ações sociais e políticas dos professores: da feminização à ação sindical

Sabemos que conhecer a história do trabalho que exerce é fundamental para a constituição da identidade profissional de todo e qualquer trabalhador. O mesmo ocorre com o professor. Entendemos que enquanto ele não incorporar a dimensão histórica em sua reflexão sobre si e sobre o seu fazer, sempre restarão lacunas. Evidentemente não esperamos que na História da Educação estejam as respostas para todas as indagações dos professores sobre sua profissão. Pensamos, isto sim, que a reflexão sobre a história e a memória de nossa atividade pode ser uma maneira estimulante de elaborar novas e criativas perguntas para e sobre a vida e a ocupação de todos nós que exercemos o trabalho de ensinar e educar.

Objetivos Específicos

Os conteúdos dessa unidade foram selecionados e organizados de modo que, ao final, você seja capaz de:

- Identificar as diferentes representações de professor construídas ao longo da história.

- Identificar os principais fatores relacionados à constituição da docência como profissão.

- Identificar os professores como sujeitos socioculturais e suas ações políticas na sociedade brasileira contemporânea.

Texto Básico

Seção 1: Os Professores na História

Objetivo específico: identificar as diferentes representações de professores construídas ao longo da história.

Ao longo da História da Educação, muitas foram as representações produzidas acerca daquele que ensina e/ou conduz o outro em direção ao conhecimento. Você mesmo, em alguma momento de sua vida ou de sua carreira como professor, deve ter ouvido a seguinte indagação: o magistério é uma profissão ou uma vocação?

Esta questão se colocou com muita força em período muito recente para os professores e, ainda hoje, é muito comum ouvi-la. No início dos anos 80 do século XX, o movimento sindical dos professores atuou de forma incisiva na produção da representação da docência como uma profissão igual a outra qualquer. No entanto, logo voltou a estabelecer-se em muitas cabeças a dúvida: não seria o magistério uma vocação e não uma profissão?

Atividade 1

E para você, o magistério é uma vocação ou uma profissão? Por quê?

Na verdade, o que o movimento sindical dos professores colocava em questão não era apenas a idéia da existência de uma vocação (palavra que vem do latim Vocare e que significa chamar) das pessoas, notadamente as mulheres, para o exercício do magistério, mas, sobretudo, a tradição de trato com os professores, que se utilizava da idéia de vocação para justificar o fato de pagar-lhes um salário aviltante.

Na verdade esta tradição não é nova nem é apenas brasileira. Num certo sentido ela antecede até mesmo a descoberta do Brasil. Sabemos que, ao longo da Idade Média, a Igreja Católica se empenhou em difundir a representação de que o único e verdadeiro mestre foi Jesus Cristo, que fez a vontade do Pai, veio à terra, fez-se homem e se sacrificou para salvar a humanidade. Nesta perspectiva, a Igreja reafirmava, também, que o bom mestre seria aquele que se aproximasse o máximo possível do modelo de Cristo e, dentre outros aspectos, se sacrificasse pela sua causa sem pedir nada em troca. Por outro lado, e complementarmente, o modelo de boa mestra seria Maria, aquela que atendeu prontamente ao chamado (à vocação) do Senhor. Em ambos os casos, há a idéia de uma entrega suprema ao "chamado" sem exigir nada em troca. "O bom pastor é aquele que dá a vida por suas ovelhas", já havia afirmado Jesus Cristo, não é mesmo?

Foto: O. Belém. CME/CERP _ Banco de Imagens

Fig. 26 _ Escola Infantil Delfim Moreira. Belo Horizonte, 1910.
Fonte: Museu da Escola de Minas Gerais. Belo Horizonte: CERP/SEE-MG, 1998. p.8

Se no universo religioso tal mensagem parece fazer sentido e ter grande significado para as pessoas, o problema aparece quando se quer expandir essa mesma representação para o conjunto das ocupações sociais, notadamente para a educação. Nesse terreno vinha-se, também, dialogando com outra tradição, mais mundana e menos religiosa, de mestre, que é a de detentor de conhecimentos e habilidades específicas em uma determinada arte: os mestres das corporações de ofícios. Tais sujeitos, mais voltados para a arte de fazer objetos, artefatos para o uso cotidiano das pessoas, também organizavam, nas corporações, formas de ensinar e de aprender os ofícios. Aqui a vocação somente era reconhecida quando se objetivava numa clara competência, numa arte ou num ofício específico.

Devido à grande influência do Cristianismo no mundo ocidental e devido sobretudo à intensa atuação da Igreja Católica, na medida em que se expandia o ideário da escolarização, a partir do século XVI, expandia-se também o modelo cristão-católico de mestre. No entanto, esta representação, sobretudo a partir do século XVIII, teve que lidar, cada vez mais, com a idéia da necessidade de um saber, de uma competência especializada para ser professor. Aliás, a própria palavra professor remete às duas tradições _ religiosa e laica _ anteriormente apontadas: professor é aquele que professa uma crença religiosa, mas é também aquele que ensina um ofício ou um saber especializado.

Assim é que, no decorrer da expansão dos sistemas de ensino, a partir do século XIX, sempre que necessário, para justificar os baixos salários ou a submissão dos professores a alguma crença religiosa em particular, apelou-se para a vocação, como se esta fosse uma espécie de panacéia para suprir a falta de investimentos na educação. Do outro lado, os professores quase nunca negaram, ao longo da História da Educação, a existência de uma certa vocação para o magistério, a qual, no entanto, não justifica a falta de investimentos por parte do Estado no salário dos professores e, menos ainda, a ausência de competência por parte destes para bem ensinar.

Atividade 2

Diante de cada alternativa, escreva V se for verdadeira, ou F, se for falsa.

a ( ) Ao longo da história, a tradição religiosa teve pouca influência na produção de um ideário sobre o magistério.

b ( ) Os professores algumas vezes afirmam que existe uma vocação para o magistério.

c ( ) A idéia de que o professor é um mestre advém, dentre outras, da tradição religiosa católica.

d ( ) O movimento social dos professores ajudou, nas últimas décadas, a consolidar a visão do magistério como um sacerdócio.

No Brasil, pelo menos até bem avançado o século XIX, era muito comum identificar o responsável pelas escolas elementares ou escolas de primeiras letras como mestre de primeiras letras. Tais mestres, como mostramos no Volume 2, eram, muitas vezes, contratados pelos pais dos alunos ou pela comunidade, com os quais passavam a ter uma relação de trabalho.

Um importante capítulo da história da profissão docente no Brasil é, pois, o momento da passagem desses mestres, vinculados aos pais e às comunidades, para professores, contratados pelo Estado. Em muitos lugares, tal processo significou um afastamento entre os novos professores e a população, e a entrada destes profissionais em relações de hierarquia e poder que não mais podiam controlar. Por outro lado, foi somente com a entrada definitiva do Estado nos negócios da instrução que esta pôde se expandir e, com ela, a própria profissão docente.

Além do ensino das primeiras letras, outros ideais e conteúdos da instrução primária serão, também, sempre lembrados pelos presidentes da província mineira como faz o presidente Bernardo Jacintho da Veiga, em 01/02/1840:

Não basta que um Mestre seja exato em lecionar por todo o espaço de tempo, que os Regulamentos marcam; não basta que ele ensine todas as matérias que a Lei designa; deveres mais sublimes e de maior importância tem a cumprir aquele, a quem está confiada a educação moral e religiosa da mocidade, aquele que tem de dirigir o desenvolvimento de sua inteligência, de comunicar-lhe as primeiras noções do bem, e do mal, do justo e do injusto, de indicar-lhe finalmente a estrada, que pode conduzir o homem à verdadeira felicidade.

No entanto, a lenta mas decisiva entrada do Estado nos negócios da instrução significou também a produção da idéia de que o fracasso da escola e das políticas educacionais tem um único e grande responsável: o professor. A partir do final dos anos 30, mais e mais vai-se demonstrando e produzindo a noção da incompetência do mestre, como o faz, em seu relatório, o presidente da província mineira Quintiliano José da Silva, em 03/02/1846:

Do mesmo mapa se vê que estas escolas são freqüentadas por 5.953 alunos, numero este que por forma alguma corresponde a mais de um milhão de habitantes, que provavelmente tem a Província. Diversas causas se podem assinar á este fenômeno, mas a principal á meu ver é o descredito, em que em grande parte tem caído as escolas publicas, descredito, que evidentemente se funda: 1o na inabilidade dos professores, salvas mui honrosas excepções; 2o nos poucos recursos materiais, de que eles dispõem no cumprimento de seus peníveis deveres. Entretanto não era possível que sucedesse de outra sorte, por que sendo tão mesquinhos os ordenados dos professores, e comumente tão mal pagos, só aceitam, e procuram este pesado ônus aqueles, que absolutamente não podem encontrar outro meio de vida.

A "culpa" pelo fracasso da instrução era quase sempre atribuída aos professores. Os trechos seguintes, extraídos de relatórios diferentes, apontam para este fato:

Há muito se diz, e nós o temos experimentado _ a escola é o mestre _: naquela se reverberam todos os vícios e defeitos, como as virtudes e conhecimentos deste. E é esta incontestavelmente uma das mais profundas raízes do mal entre nós: o pessoal encarregado do magistério, especialmente na instrução primaria, é em geral ignorante e mal educado. (Presidente da Província de Minas Gerais, Coronel Joaquim Camillo Teixeira da Motta, em 01/08/1862).

Quando se queria mostrar que estava "tudo bem", elogiava-se a administração, a legislação, os atos do governo. Quando se queria mostrar como as coisas iam de mal a pior, quase sempre os professores recebiam a culpa. Alguns presidentes e diretores de instrução acreditavam e afirmavam que o ensino só melhoraria com a criação de uma Escola Normal. Este fato aparece nos relatórios desde o início do século.

(...) Para se ajuizar do professorado, basta ler os últimos relatórios dos inspetores gerais. No de 1882, disse um: `confesso, com dor, mas forçoso é fazê-lo, que o professorado da instrução primaria é em geral baldo da precisa habilitação'. No de 1885, disse outro: `o magistério primário acha-se entregue em sua quase totalidade a indivíduos semi-analfabetos'. E o atual inspetor torna saliente o estado `de atraso e de corrupção' em que se acha o professorado. (Presidente Manoel do Nascimento Machado Portella, em 13/04/1886.)

Pelo que se vê, conforme dizíamos, a entrada do Estado na administração dos negócios da instrução, ainda no século XIX, quase sempre significou a responsabilização do professorado pelos péssimos resultados da escola pública. Se, por um lado, há evidências da existência de muitos mestres que mal sabiam ler e escrever, por outro, nada nos autoriza a pensar que sejam estes sujeitos os únicos ou principais responsáveis pela baixa qualidade da escola. Com certeza, a explicação de tal fato tem de ser buscada muito mais na forma como o Estado brasileiro sempre lidou com a educação dos mais pobres do que na real ou suposta ignorância dos mestres.

Atividade 3

A) Identifique, nas citações precedentes, as principais críticas feitas pelos presidentes de província ao trabalho dos professores no século XIX.

B) Do seu ponto de vista, essas críticas poderiam ser feitas ao trabalho desenvolvido atualmente pelos professores? Por quê?

Seção 2: A Docência como Profissão

Objetivo específico: identificar os principais fatores relacionados à constituição da docência como profissão.

Conforme você já estudou em outros módulos e conteúdos _ e, especialmente, na Unidade 2 de História da Educação _, histórica e socialmente, uma das características da educação escolar é o fato de a mesma ser desenvolvida sob a responsabilidade de um sujeito designado para tal tarefa: o professor. Nesta unidade, estamos estudando as várias representações sobre o professor construídas ao longo da História da Educação. Uma delas, da qual nos ocuparemos a seguir, é, sem dúvida, a do professor como um profissional da educação.

Atividade 4

Você considera a docência como uma profissão? Se considera, aponte pelo menos três elementos que caracterizam esta profissão. Se não, justifique sua resposta.

Você está correto se apontou, por exemplo, que a docência é uma profissão caracterizada, entre outras coisas, por uma formação especializada, pelo contato cotidiano com os outros _ os alunos e colegas _, por um extenso período diário ao longo de muito tempo _ durante o ano _, e por uma organização sindical ou associativa específica. No entanto, como sabemos, nem sempre foi assim, não é mesmo?

A caracterização da docência, do trabalho de professor como uma profissão deu-se muito recentemente, na História da Educação. Ela está diretamente relacionada a pelo menos três fenômenos já estudados por nós: a afirmação da escola com a instituição responsável pela socialização da infância; a expansão desta instituição ao longo dos séculos XIX e XX, sob a responsabilidade dos estados nacionais; e, finalmente, a constituição de saberes específicos sobre a infância e sobre os modos ensinar.

Como já estudamos, a escola, ao longo dos últimos séculos, veio tornando-se mais e mais uma instituição independente das outras, como a família e a igreja. Falar que a escola é uma instituição independente não significa que ela esteja afastada do mundo e da vida social. Quer dizer que ela veio se constituindo como um modo específico, como uma maneira diferenciada de educar. Lembra-se de que estudamos isto na Unidade 2?

Pois bem, ao constituir-se assim, a escola, cada vez mais, passou a ocupar mais tempo e a exigir uma dedicação cada vez maior dos alunos e dos professores. Paulatinamente, foi ficando difícil para as pessoas que trabalhavam na escola, cumprir as responsabilidades da docência e cuidar dos outros afazeres da vida. O ensino passou a ser a principal ocupação dessas pessoas.

Por outro lado, o crescente interesse dos estados nacionais pela expansão da escolarização, conforme vimos na Unidade 1, foi estendendo a escola a um número maior de crianças, de modo que cada vez mais pessoas, atuando como professores, encontrassem no serviço público da educação uma forma de garantir a sua inserção no mercado de trabalho e o sustento da família. Na medida em que passaram a dedicar um maior tempo à docência, os professores passaram, também, a encontrar-se com seus pares e descobrir interesses e objetivos comuns, como, por exemplo, a expansão de sua própria escolarização, a defesa do salário e de melhores condições de trabalho.

Assim, no decorrer do século XIX, a escola primária foi-se tornando a ocupação principal de um número cada vez maior de pessoas, passando a ocupar contingentes significativos de profissionais no âmbito do serviço público. Já nessa época o serviço público da educação, em muitos países, era um dos que mais empregavam pessoas.

Mesmo quando contratados pelo Estado, porém, em muitos países, inclusive no Brasil, dos professores e, sobretudo, das professoras, quase sempre foram cobrados comportamentos de estrita observância das regras morais vigentes. Como exemplo deste tipo de controle, transcrevemos os termos de um contrato assinado entre uma professora e o Conselho de Educação de uma escola norte-americana, celebrado em 1923.

Este é o acordo entre a Senhorita _____________, professora, e o Conselho de Educação da Escola _________, pelo qual a Senhorita __________ concorda em ensinar por um período de oito meses, começando em 1º de setembro de 1823. O Conselho de Educação concorda em pagar à Senhorita _____________ a soma de 75 dólares por mês.

A Senhorita _____________ concorda com as seguintes cláusulas.

1. Não casar-se. Este contrato torna-se nulo imediatamente se a professora se casar.

2. Não andar em companhia de homens.

3. Estar em casa entre as 8 horas da noite e as 6 horas da manhã, a menos que esteja assistindo a alguma função da escola.

4. Não ficar vagando pelo centro em sorveterias.

5. Não deixar a cidade em tempo algum sem a permissão do presidente do Conselho de Curadores.

6. Não fumar cigarros. Este contrato torna-se nulo imediatamente se a professora for encontrada fumando.

7. Não beber cerveja, vinho ou uísque. Este contrato torna-se nulo imediatamente se a professora for encontrada bebendo cerveja, vinho ou uísque.

8. Não andar de carruagem ou automóvel com qualquer homem exceto seu irmão ou pai.

9. Não vestir roupas demasiadamente coloridas.

10. Não tingir os cabelos.

11. Vestir ao menos duas combinações.

12. Não usar vestidos mais de duas polegadas acima dos tornozelos.

13. Conservar a sala de aula limpa.

14. Varrer o chão da sala de aula ao menos uma vez por dia.

15. Esfregar o chão da sala de aula ao menos um vez por semana com água quente e sabão.

16. Limpar o quadro-negro ao menos uma vez por dia.

17. Acender a lareira às 7 horas da manhã de forma que a sala esteja quente às 8 horas quando as crianças chegarem.

18. Não usar pó no rosto, rímel, ou pintar os lábios.

(Apud.: Apple; Teitelbaun, 2001.p.63)

Paralelamente a isto, a escola veio se tornando complexa. De uma instituição que, muitas vezes, funcionava na casa do professor ou nos espaços adaptados pela comunidade, ela passou a ser cada vez mais estruturada com tempos e espaços próprios. Ao longo do processo, para dar conta dessa complexidade crescente, foram sendo produzidos saberes voltados especificamente para o campo da educação escolar, procurando entender como se ensina, como se aprende, qual a melhor educação, qual o melhor método a ser adotado nas escolas, e assim por diante.

Desse modo, a escola também passou a ser objeto de observação e de interrogação dos próprios professores e de outros profissionais. No entanto, apesar da complexidade apresentada pela escola e pelos diversos saberes necessários à realização da ação docente, o que se observava é que não existiam instituições voltadas especificamente para a formação de professores.

Diante disso, como um momento importante da transformação da ocupação de dar aulas em uma profissão, foram organizadas, primeiro na Europa, e depois em várias partes do mundo, as Escolas Normais, as quais passaram a se ocupar especificamente da transmissão _ àqueles que queriam ser professores, ou mesmo aos que já o eram _, dos saberes necessários à sua inserção ou permanência no magistério.

Atividade 5

Com base no texto desta seção e em suas leituras, complete os espaços vazios das afirmações, com as seguintes palavras:

administração, ambiente escolar, avaliar, comportamento, controle, formação, moral, poder, professor, profissão docente

A) Apesar das mudanças ocorridas, durante muito tempo as ______________ foram contratadas e ______________ unicamente segundo critérios de ordem _______________.

B) Para o exercício da ____________________ sempre se levou em conta o das professoras fora do _______________________.

C) O ________________ da vida dos professores quase sempre interessou aos responsáveis pela __________________ dos serviços da educação.

D) A ______________ representa, ao longo da história, uma estratégia fundamental de afirmação do ______________ dos professores.

O que podemos observar é que, no Brasil e em muitos outros países, os professores continuavam sendo contratados com base, sobretudo, em seu comportamento moral. Se se considera, por exemplo, que o Império Brasileiro (1822-1889) era oficialmente católico e que a Igreja Católica detinha grande poder de influência sobre boa parte da vida social brasileira, vamos considerar também que o principal atributo cobrado aos mestres é que eles tivessem um comportamento moral condizente com a fé católica.

É por isso que muitos estudiosos consideraram que a criação das Escolas Normais teve um grande significado para a profissionalização do magistério. Isto não significa dizer, no entanto, que elas sejam as únicas responsáveis pela profissionalização ou, mesmo, que tão logo tenham sido organizadas elas passaram a ter um peso muito grande na formação dos professores. Na verdade, durante muitos e muitos anos, apesar de existirem as Escolas Normais, a maioria dos professores jamais passou pelos seus bancos.

No Brasil, as primeiras Escolas Normais foram criadas a partir de 1835 e começaram a funcionar logo depois, nas Províncias do Rio de Janeiro, de Minas Gerais, da Bahia e de São Paulo. A Escola Normal de Minas Gerais foi criada em 1835 e começou a funcionar em 1840, na cidade de Ouro Preto, capital da Província. Essa escola fechou em 1842; voltou a funcionar em 1846, para novamente fechar em 1852. Reaberta em 1872, não mais fechou até o final do século XX.

O que se ensinava nessas escolas? É difícil responder a esta pergunta, já que as Escolas Normais tinham organização variada e viveram profundas mudanças ao longo de sua história. No entanto, de modo geral, podemos dizer que um traço constitutivo da experiência das Escolas Normais foi a preocupação de ensinar aos professores os modos como eles deviam ensinar aos seus alunos. Ou seja, as Escolas Normais sempre tiveram uma marcante preocupação com o método de ensino; aliás, pode-se dizer com razoável segurança que as Escolas Normais foram responsáveis pela divulgação de boa parte das inovações metodológicas no Brasil.

Ao mesmo tempo, contudo, as Escolas Normais sempre se preocuparam sobremaneira com a formação moral dos professores, principalmente quando esses (ou futuros) professores, no final do século XIX, passaram a ser predominantemente mulheres, como veremos na próxima seção desta unidade. A partir deste momento, além da preocupação de caráter metodológico e moral, acentuaram-se, também, os conteúdos necessários à formação da boa dona de casa: afinal, pensavam, além de ser uma professora, esta mulher deve ser uma boa esposa, boa mãe e boa dona de casa, e é preciso formá-la para tais tarefas, não é mesmo?

Fig. 27 _ Fonte: Kupstas, M. (org.) Educação em debate. São Paulo: Moderna, 1998. p.53

Paulatinamente, ao lado dos conhecimentos sobre os métodos, foi sendo introduzida uma série de outros conhecimentos especializados, necessários ao exercício da profissão: conhecimentos sobre a pedagogia de uma forma geral e, mais especificamente, conhecimentos a respeito da criança, de seus processos de desenvolvimento e aprendizagem. Além disso, em muitas das Escolas Normais, era preciso que os futuros professores aprendessem, de forma mais aprofundada, aqueles conteúdos que iriam ensinar a seus alunos, quais sejam: Linguagem, Matemática, Ciências, História, Geografia, Religião, dentre outros.

Atividade 6

Quais foram os fatores, até aqui apontados no texto, que contribuíram para a transformação do magistério numa profissão?

Dissemos há pouco, nesta mesma seção, que, no Brasil, somente a partir do final do século XIX as mulheres passaram a ser maioria do alunado das Escolas Normais, e que isto trouxe conseqüências para estas instituições, como por exemplo, a introdução de conteúdos voltados para a formação da futura mãe, esposa e dona de casa, lembra-se? Mas você sabia que até o final do século XIX os homens eram a maioria do professorado na escola primária? Pois fique sabendo que isto é verdade! E é dessa mudança que vamos tratar aqui.

Para discutir esse assunto que é, sem dúvida, muito interessante, vamos lançar mão de uma expressão cunhada pelos pesquisadores da história da profissão docente, a chamada feminização do magistério. Com essa expressão, os pesquisadores querem identificar o complexo processo que transformou a docência, de uma profissão ocupada majoritariamente por homens, até o final do século XIX, numa profissão ocupada eminentemente por mulheres, ao longo do século XX.

No início do século XIX o número de mulheres que trabalhavam como professoras era muito pequeno. Para este período, não existem dados muito precisos, mas podemos dizer, com segurança, que as mulheres não chegavam a 10% dos professores. Na virada do século XIX para o XX o magistério já era uma profissão ocupada majoritariamente por mulheres, fenômeno que se acentuou progressivamente: no fim do século XX, as mulheres ocupavam cerca de 95% dos postos de trabalho no magistério primário (ou equivalente). Tal fenômeno, conforme vários estudiosos do assunto, parece ter ocorrido em escala mundial nesse período, e estudos indicam que o mesmo aconteceu no Brasil.

Cabe-nos perguntar: o que teria ocorrido na sociedade e nas escolas para que tal mudança tenha se efetivado? Que fatores influenciaram essa enorme transformação da profissão? É o que vamos tentar responder na seção seguinte, quando trataremos das ações sociais e políticas dos professores.

Atividade 7

Ao longo do Veredas, temos estimulado você a pensar nas razões que o levaram a escolher o magistério como profissão, e a registrar essas reflexões no Memorial. Retome essa questão, analise-a à luz do que foi estudado nas Seções 1 e 2 deste texto, e comente algumas das razões de sua escolha.

 

Fonte

Este texto faz parte do Projeto Veredas, Módulo 3, V. 4

 

Veja também:
Os Professores e a Profissão Docente - Parte II
Os Professores e a Profissão Docente - Respostas