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- Temas Educacionais

CRIADO EM: 23/03/2006
MODIFICADO EM: 23/03/2006
: A Escola Sagarana e o investimento no sucesso escolar: pontos para discussão


Maria José Vieira Féres


1. A OPÇÃO PELO CICLO: BALANÇO E PERPECTIVAS


O ano de 1999 foi marcado pelas discussões que envolveram as Escolas Estaduais sobre o que se chamou de "organização do tempo escolar". Centrado na democracia e no respeito à opção da Escola, esse processo se caracterizou pela riqueza das contribuições originárias do trabalho pedagógico já em desenvolvimento nas diversas unidades escolares.

Os resultados divulgados no Encontro Estadual de Belo Horizonte, em novembro de 1999, em que 60% das Escolas optaram pela organização em ciclos, 33% em séries, 3% em ciclos e séries e 4% ainda estavam indefinidas, merecem uma análise detalhada que possa identificar claramente o(s) significado(s) desses percentuais. Entretanto, a opção da maioria das Escolas pelo ciclo, por si só, já torna evidente a disposição do investimento em mudanças compromissadas com a Escola Inclusiva e de qualidade para todos. Durante todo o processo que se desenvolveu em 1999, ficou clara a posição da Secretaria de Estado da Educação de não produzir soluções de "gabinete" para tema tão complexo e polêmico, mas de investir na construção coletiva e na discussão democrática.

Entretanto, se por um lado, a Secretaria de Estado de Educação descarta imposições descabidas e rejeita as práticas autoritárias, que desrespeitam as especificidades e a identidade própria de cada Escola, por outro lado, não abre mão de exercer o seu papel de instância coordenadora de um sistema educacional público.

A interação entre Escola e instâncias administrativas e coordenadoras do sistema educacional público - Superintendências Regionais de Ensino e Secretaria de Estado da Educação - precisa ser compreendida de forma democrática. O resgate dessa discussão é fundamental para o cotidiano da Escola e, particularmente, para a implementação da opção por ciclos na rede de ensino fundamental.

As escolas optaram pelo ciclo como resultado de uma discussão coletiva e por isso, a sua implantação deve se fazer da mesma maneira, para que a organização do tempo escolar reflita concretamente uma nova concepção de Escola e do trabalho educativo. Caso contrário, o ciclo corre o risco de ser apenas mais uma resolução.

A princípio, pode até parecer que observações desse tipo não fazem sentido neste texto. Esta, no entanto, é a questão substantiva que deve nortear o trabalho dos educadores de Minas Gerais. O ciclo não é uma invenção da Secretaria de Estado e por isso mesmo, precisa ser assumido por todos, resguardadas as especificidades das funções de cada um dos atores envolvidos nesse processo (Escola, SRE e SEE).

Nesta perspectiva, é fundamental que sejam destacados os princípios que nortearam toda a discussão sobre a organização do tempo escolar, antes de se explicitar algumas questões específicas sobre o tema da avaliação.


2. PONTOS DESTACADOS NA DISCUSSÃO SOBRE ORGANIZAÇÃO DO TEMPO ESCOLAR

2.1 - Função da Escola

Na sociedade que se vive hoje, a Escola não tem apenas a função de ensinar, mas a de FORMAR SERES HUMANOS, levando em conta as suas múltiplas dimensões: conhecimento, afetividade, sexualidade, cidadania e ética.

2.2 - O aluno

A Escola tem como centro, o aluno, entendendo-o como sujeito do processo histórico e social e, portanto, como sujeito do conhecimento e do processo educativo global. Tendo como referência a sua tarefa de formar seres humanos, a Escola respeita as diferenças individuais e constrói o seu projeto pedagógico, levando em conta os diferentes ritmos dos alunos. Ao assumir que todos são capazes de aprender, a escola, passa a valorizar a APRENDIZAGEM como o seu maior desafio.

2.3 - O processo de conhecimento

O conhecimento é um processo em construção onde as experiências dos alunos são importantes e devem ser consideradas. "O conhecimento não é visto como algo situado fora do indivíduo a ser adquirido por meio de cópia do real, tampouco como algo que o indivíduo constrói independentemente da realidade exterior, dos demais indivíduos e de suas próprias capacidades pessoais. É antes de mais nada uma construção histórica e social, na qual interferem fatores de ordem cultural e psicológica" (Parâmetros Curriculares Nacionais - MEC/SEF-1997). O trabalho curricular deve levar em conta a interdisciplinaridade e os eixos temáticos, de modo a garantir o êxito do processo educativo na formação do ser humano e a interação da Escola com questões da vida contemporânea.

2.4 - O trabalho pedagógico coletivo

É fundamental romper as barreiras do isolamento e do individualismo e fazer do processo educativo uma ação coletiva da Escola. Neste sentido, é importante desenvolver o hábito do trabalho pedagógico em equipe, discutido coletivamente por professores, especialistas, direção da Escola, com a participação de alunos e pais. O Colegiado Escolar pode desenvolver um papel importante para a construção desta cultura, que redimensiona o trabalho pedagógico e o ato de educar.

2.5 - A avaliação

O processo de avaliação deve ser sistemático, qualitativo e por progressão continuada. O que significa avaliar? O que significa progressão continuada? Como avaliar levando em conta as diferenças individuais dos alunos e os variados aspectos do ser humano? Quem pode avaliar? Com que instrumentos se deve avaliar? Progressão continuada é promoção automática? O aluno pode ser reprovado ou ficar retido, quando se trata da organização do tempo escolar em ciclos? Estas são apenas algumas questões que são colocadas quando se fala em avaliação com progressão continuada.


Toda a polêmica em torno do tema da avaliação é, de fato, procedente. Formados e capacitados a partir de outros paradigmas, professores e especialistas se deparam com novos conceitos de complexa operacionalização.

A avaliação é ponto crucial para o êxito da organização do tempo escolar em ciclos. Por isso, algumas questões sobre este tema estão sendo colocadas em discussão. A partir dos consensos obtidos junto às Escolas, a SEE pretende normatizar o processo de avaliação, como é necessário. Entretanto, antes de se optar por uma Resolução, entende-se que é fundamental uma discussão preliminar. Isto não significa que a SEE não deva trabalhar com orientações e instruções junto às Escolas, no sentido de garantir a coordenação que este processo exige e que as instâncias administradoras do sistema, têm a responsabilidade e o dever de assumir.

3 - O PROCESSO DE AVALIAÇÃO E O INVESTIMENTO NO SUCESSO ESCOLAR

O processo de avaliação deve ser compreendido como uma estratégia para acompanhar o desenvolvimento progressivo do aluno, ou seja, a progressão continuada das aprendizagens.

Nesta perspectiva, a avaliação deve servir para realizar diagnósticos, identificar problemas e redimensionar os rumos do processo educativo. Esta é uma tarefa complexa, porque reflete mudanças profundas que sinalizam para a necessidade da formação de uma nova cultura de avaliação, compreendida como um processo formativo, contínuo e qualitativo. A opção pela progressão continuada descarta a avaliação punitiva, acumulativa e classificatória.

Longe de significar promoção automática, independente do desenvolvimento alcançado pelo aluno ou das competências e habilidades por ele adquiridas, a progressão continuada tem o compromisso com as aprendizagens, redimensionando o processo avaliativo para garantir o sucesso escolar.

As considerações traçadas no item 2 deste texto servem para lembrar que o processo de avaliação e a progressão continuada devem ser compreendidos junto com os demais princípios que nortearam a opção das Escolas pelo "ciclo". Não se trata de promover automaticamente o aluno que não sabe, trata-se de incorporar na prática pedagógica a concepção de que TODOS PODEM APRENDER E SABER. Entendendo a progressão continuada como parte integrante de um projeto político-pedagógico em desenvolvimento nas Escolas, é importante que algumas questões relacionadas especificamente com a avaliação sejam colocadas em pauta para discussão:

3. 1 - Comportamentos pedagógicos essenciais para a implementação da progressão continuada.

É fundamental que professores e alunos desvinculem o processo avaliativo da punição disciplinar em sala de aula. O processo de avaliação deve ser incorporado como fator de crescimento de formação e não como castigo. Não há sentido na manutenção de medidas classificatórias de avaliação, porque o que interessa é o resultado final. Nesta perspectiva propões-se que os alunos tenham ao final do processo avaliativo a qualificação de satisfatório ou insuficiente, apto ou não apto. No decorrer do processo de avaliação não cabe acumular fracassos, até porque o mecanismo classificatório foi abolido. Isto significa dizer que na prática cotidiana da Escola, o aluno que não apresentou a aprendizagem de um determinado conteúdo mas que, algum tempo depois, demonstrou tê-lo aprendido, só deve ter computado como valido o último resultado. A avaliação deve ser permanente, contínua e qualitativa. Cada aluno deve ter uma ficha individual, onde o professor registra cotidianamente ou em períodos estipulados pelas instâncias coletivas de avaliação, os avanços ou problemas dos alunos.

3. 2 - Instrumentos de avaliação

Os professores, tendo sempre como referência a discussão coletiva resultante das reuniões pedagógicas, devem permanentemente criar e/ou recriar instrumentos de avaliação. Normalmente, a Escola já dispões de numerosos instrumentos de avaliação, tais como: trabalhos e atividades em grupo, entrevistas, mecanismos de auto-avaliação, relatos orais e escritos, testes, provas, seminários, etc.
O fundamental é que estes e/ou outros instrumentos de avaliação sejam redimensionados no que diz respeito aos seus efeitos, integrando um processo formativo, contínuo e qualitativo. O registro oficial de vida escolar dos alunos deve ser feito nos prazos estipulados pela Escola por meio de suas instâncias coletivas de decisão.

3. 3 - As instâncias coletivas de avaliação

Um dos princípios norteadores da opção por ciclo é exatamente o trabalho pedagógico coletivo. A resolução 06/2000 já prevê o espaço de 2 (duas) horas consecutiva, quinzenalmente, para as reuniões pedagógicas. Este espaço deverá ser ampliado assim que for elaborado e aprovado o Plano de Carreira dos Profissionais da Educação. Nesta perspectiva, o processo de avaliação, além de contar evidentemente com a participação individual do professor, deve ser submetido às instâncias coletivas que representarão para este fim, a Escola enquanto Instituição.

Propõe-se as seguintes instâncias coletivas de avaliação:

a) O Conselho do Ciclo: será constituído pelos professores do Ciclo e deverá se reunir, pelo menos, quinzenalmente, por 2 (duas) horas consecutivas.
Além das atribuições de planejamento e discussões pedagógicas sobre o ciclo, caberá ao Conselho tomar conhecimento das avaliações realizadas individualmente pelos professores e deliberar sobre os alunos que apresentam necessidade de participação nas atividades pedagógicas do NAI (Núcleo de Aprendizagem Interativa). Isoladamente, o professor não poderá tomar este tipo de decisão. Caberá ainda ao Conselho do Ciclo determinar o tempo de permanência do estudante no NAI, bem como acompanhar o seu processo de aprendizagem e crescimento enquanto estiver no Núcleo.

b) Comissão de Avaliação da Escola - constitui a instância máxima de gestão pedagógica e de avaliação e será integrada por professores, pais e alunos assim distribuídos:

01 (um) professor regente representante do Ciclo Básico,
01 (um) professor de Língua Portuguesa,
01 (um) professor de Matemática,
01 (um) professor da área de Ciências Humanas,
01 (um) professor da área de Ciências da Natureza,
01 (um) professor discente,
01 (um) representante dos pais.

Os representantes dos professores serão escolhidos por eleição com a participação de todos os docentes em atividade na Escola, independentemente da área de conhecimento ou dos ciclos em que atuam. O representante estudantil deve ser escolhido pelo Grêmio e o dos pais pela Associação de Pais e Alunos.
A Comissão de Avaliação da Escola deverá receber e analisar, periodicamente, os relatórios de avaliação dos alunos emitidos pelos Conselhos do Ciclo e acompanhar as atividades dos Núcleos de Aprendizagem Interativa.
Ao final de cada ciclo, caberá à Comissão de Avaliação da Escola, de posse dos dados enviados pelos Conselhos de Ciclo, decidir sobre os alunos que necessitam de Programas de Estudos Complementares ou Suplementares, realizando o acompanhamento sistemático desses estudantes. No caso de "Estudos Complementares", a Comissão decidirá sobre o tempo de permanência do aluno no Programa, bem como sobre a possibilidade de realizá-lo de forma concomitante com o ciclo subsequente.
Esta proposta supõe que a avaliação seja assumida coletivamente, de forma institucional e não apenas pelo professor.

4 - OS PROGRAMAS DE ESTUDOS COMPLEMENTARES E O PROGRAMA DE ESTUDOS SUPLEMENTARES.

O Programa de Estudo Complementares será realizado ao final de cada ciclo, exclusivamente para alunos que de acordo com os objetivos propostos, não conseguiram adquirir satisfatoriamente as habilidades e competências exigidas. Como já foi dito anteriormente, esta decisão cabe à Comissão de Avaliação da Escola. De acordo com a avaliação realizada, o aluno permanecerá no Programa pelo tempo estipulado pela Comissão, desde que não ultrapasse, em nenhuma hipótese, 1 (um) ano de duração. É também possível, dependendo do desenvolvimento apresentado pelo aluno, cursar o Programa de Estudos Complementares e, ao mesmo tempo, mudar de ciclo. Este programa deve ser regido por diretrizes e regras próprias e poderá ser operacionalizado por Escola ou por Pólo de Escolas.

As Superintendências Regionais de Ensino devem realizar o levantamento necessário junto às Escolas, levando em conta as diferenças regionais para que se processem as definições operacionais do Programa. O Programa de Estudos Suplementares destina-se aos alunos que tenham encontrado dificuldades sistemáticas nos 6 (seis) primeiros anos de escolarização do ensino fundamental (Ciclo Básico e Ciclo Intermediário), apesar das atividades desenvolvidas nos Núcleos de Aprendizagem Interativa e nos Programas de Estudos Complementares.

Serão transferidos para o Programa de Estudos Suplementares do Ensino Fundamental, os alunos com idade igual ou superior a 14 anos no final do Ciclo Intermediário e aqueles que apresentam o conceito insuficiente ao final do Ciclo Avançado. É bom frisar, que também neste caso, caberá à Comissão de Avaliação da Escola o encaminhamento e o acompanhamento dos alunos no Programa.
O Programa de Estudos Suplementares terá projeto pedagógico específico com o objetivo de superar as dificuldades apresentadas pelos alunos. As escolas que oferecerão o Programa serão selecionadas pelas Superintendências Regionais de Ensino e deverão ter o suporte necessário de recursos humanos e financeiros, garantidos pela Secretaria de Estado da Educação.

5 - O SIMAVE E A PROGRESSÃO CONTINUADA

O Sistema Mineiro de Avaliação da Educação Pública - SIMAVE - criado pela Secretaria de Estado da Educação em janeiro de 2000, promoverá a necessária interação com as instâncias coletivas de avaliação da Escola. A Comissão de Avaliação da Escola será responsável, na Unidade Escolar, pela organização das atividades instituídas no âmbito do SIMAVE, em estreita comunicação com a Comissão Regional de Avaliação da Educação Pública.

6 - A DURAÇÃO DO ENSINO FUNDAMENTAL

A permanência prolongada da criança e do adolescente no ensino fundamental tem se traduzido em rendimento decrescente, desinteresse e abandono. A progressão continuada significa o compromisso permanente com o aluno, com o sucesso escolar e com a educação de qualidade para todos. Nesta perspectiva, propõe-se que seja estipulada a duração máxima para o ensino fundamental na rede estadual de Minas Gerais, que seria de 9 (nove) anos e excepcionalmente, de 10 anos.

7 - CONCLUSÃO E OBSERVAÇÕES FINAIS

Este texto pretende contribuir com a discussão sobre progressão continuada nas Escolas de Minas Gerais que optaram pela organização do tempo escolar em ciclos. Como já foi dito anteriormente, este processo se caracteriza por ser uma construção coletiva e, por isso mesmo, não cabe a apresentação de propostas fechadas e acabadas. Entretanto, é necessário que a rede de ensino discuta e se posicione para que instruções coletivas sejam repassadas às Escolas.Sobre as Unidades Escolares que optarem pela organização do tempo escolar em séries, cabe também a discussão do processo de avaliação e da criação das instâncias coletivas, respeitadas as peculiaridades da seriação. É importante registrar que a parte deste texto relativa à progressão continuada, às instâncias coletivas de avaliação e aos Programas de Estudos Complementares e Suplementares contou com a efetiva colaboração do Prof. Manuel Fernando Palácios Cunha e Melo, Diretor da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Juiz de Fora e Consultor da SEE/MG para o SIMAVE.



 

Fonte

Disponiblizado inicialmente na Biblioteca do SIAPE - Sistema de Ação Pedagógica.