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Campo de Investigação I:
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SER HUMANO |
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Tema:
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Corpo e Psiquismo |
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Conceito:
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A posição monista - Avaliação crítica do monismo e do dualismo |
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Porque ensinar
Contemporaneamente, o debate sobre as relações entre corpo e psiquismo ou entre cérebro e mente tem se nutrido de descobertas científicas recentes no campo da neurobiologia, da psicologia cognitiva e da inteligência artificial. Nesse contexto atual, a velha questão filosófica passou a ser o centro de um novo campo da investigação filosófica: a filosofia da mente.
Condições prévias para ensinar
O assunto deste tópico dá prosseguimento ao tratado na OP Corpo e Psiquismo I.
O que ensinar
Em contraposição às concepções dualistas, as soluções monistas para o problema mente-corpo não estabelecem nenhuma distinção fundamental entre alma e corpo ou entre mente e cérebro. No século XVII, Baruch Spinoza defenderá contra Descartes a doutrina monista segundo a qual o mental e o físico são na realidade aspectos de uma mesma substância. Nos séculos XX e XXI, a posição monista mais defendida é a fisicalista. Os representantes do fisicalismo sustentam, grosso modo, que apenas as entidades físicas existem e que os processos mentais podem todos ser reduzidos a processos cerebrais.
O importante a ser trabalhado com os alunos é menos a variedade de posições relativas a uma ou outra concepção e mais os argumentos que possam ser alegados a favor do dualismo ou do monismo.
A seguir, apresentamos dois argumentos importantes em prol de uma e outra posição.
Argumentos a favor do dualismo:
Um dos argumentos a favor da solução dualista é o da irredutibilidade dos processos subjetivos e interiores aos processos físicos e corporais. Esse argumento baseia-se na evidência de que uma terceira pessoa não pode jamais sentir exatamente aquilo que se passa no interior de uma outra pessoa. Um cientista, por exemplo, que analisa a configuração cerebral de uma pessoa no momento em que ela saboreia uma barra de chocolate não pode jamais sentir o sabor experimentado por ela. A hipótese dualista para esse problema sugere que a nossa consciência, que acontece como uma experiência em primeira pessoa, é essencialmente distinta dos nossos estados cerebrais, que por serem processos físicos, são acessíveis a uma terceira pessoa. A nossa consciência tem assim uma natureza essencialmente mental enquanto o nosso cérebro uma natureza fundamentalmente física. Essa solução é denominada dualista, pois considera que somos constituídos de duas substâncias ou de duas naturezas distintas: a mental e a corporal. Na tradição filosófica ocidental essa natureza mental foi identificada ao conceito de alma. A solução dualista considera assim que somos constituídos de alma e corpo.
Outro argumento a favor do dualismo pode ser apresentado como se segue:
- Princípio da identidade dos indiscerníveis:
Se duas coisas x e y são idênticas, então elas têm exatamente as mesmas qualidades ou propriedades, ou seja, toda a propriedade p que x tenha é uma propriedade que y também tem.
Dito de outra forma:
Se há pelo menos uma propriedade p tal que x a possui ey não, então x e y são coisas distintas
Aplicando esse princípio às coisas físicas e mentais, temos que:
(1) uma coisa meramente física não pode ter propriedades mentais, não pode pensar, ter emoções, sensações, desejos, crenças, etc.
(2) Por outro lado, a mente e os processos mentais também não podem ter propriedades físicas, como a extensão, o volume, o peso, a divisibilidade, etc.
Logo,
a mente não é idêntica ao corpo, sendo, pois, duas substâncias distintas.
Argumento a favor do monismo fisicalista:
Um dos argumentos principais a favor do fisicalismo refere-se à conexão causal entre estados cerebrais e estados mentais. Esse nexo causal é empiricamente verificável quando se evidencia que a eliminação ou alteração de uma etapa sequer na seqüência de transmissão dos impulsos nervosos é suficiente para modificar o estado mental. Isso leva à consideração de que tudo o que acontece na nossa consciência depende do que acontece no nosso corpo. O estado consciente seria assim o resultado de uma certa configuração cerebral. A dor que sentimos, por exemplo, no dedo do pé quando topamos numa pedra, se reduz, em última instância, às alterações químicas e elétricas nas células nervosas que compõem o nosso cérebro, estimuladas pelos impulsos transmitidos pelos nervos do nosso pé ao cérebro. Esse argumento causal é respaldado por pesquisas científicas bem sucedidas que fizeram corresponder a cada região do nosso cérebro uma determinada experiência consciente. Como no caso da experiência visual que ocorre quando células cerebrais próximas à nuca são estimuladas ou da experiência de saborear um chocolate que acontece como uma alteração física numa determinada região cerebral transmitida pelos nervos que ligam as papilas gustativas ao cérebro. Assim, o argumento causal pode ser complementado pelo argumento cientificista, na medida em que tudo o que pode ser dito objetivamente sobre nossos estados conscientes é assunto apenas da ciência. A nossa ignorância atual em relação à complexidade do cérebro e de suas relações com os estados mentais não é suficiente para refutar o fisicalismo, pois pode-se sempre apelar para o progresso científico que nos faz crer que no futuro os mistérios atuais serão resolvidos.
Em resumo, esse argumento principal a favor do monismo pode ser sintetizado como se segue:
(1) Há um nexo causal entre um acontecimento mental particular M, por exemplo, o prazer que um sujeito sente ao saborear uma barra de chocolate, e um processo cerebral C, por exemplo, uma ativação mensurável de zona específica do cérebro.
(2) Pesquisas neuro-científicas em pacientes com lesões cerebrais comprovam que se a zona do cérebro em que ocorre o processo C é afetada, o acontecimento M não mais se manifesta.
Logo, os acontecimentos M são redutíveis a C e a mentenão é uma entidade independente do cérebro.
Aconselha-se que o professor explore vários exemplos que ilustrem os argumentos aludidos.
Uma terceira posição:
Uma terceira posição pode ainda ser considerada para tema em questão. Thomas Nagel, por exemplo, defende uma solução para o problema mente-corpo que ele denomina teoria do aspecto dual. Ele reconhece que o tratamento científico dos processos físicos ligados à atividade cerebral é insuficiente, pois não oferece uma análise adequada da vida psíquica ou mental. Assim, contra o fisicalismo, a teoria do aspecto dual considera que os processos mentais são distintos dos processos físicos que ocorrem no cérebro. Pode-se apresentar o mesmo argumento dado pela solução dualista, qual seja, o de que uma terceira pessoa não pode jamais sentir exatamente aquilo que se passa no interior de uma outra pessoa. Um cientista, por exemplo, que analisa a configuração cerebral de uma pessoa no momento em que ela saboreia uma barra de chocolate não pode jamais sentir o sabor experimentado por ela. No entanto, ela rejeita o pressuposto do dualismo metafísico de que somos constituídos de uma alma, sede de nossas experiências mentais, e de um corpo, sede de nossos processos físicos. Para a teoria do aspecto dual, a sede de nossas experiências mentais é o cérebro e não a alma. Esta última é uma crença metafísica que pode ser eliminada. Contudo, ainda que nossa vida mental ocorra no cérebro, nossas experiências conscientes, nossos desejos e sentimentos são processos que não se reduzem àqueles físicos do cérebro. O nosso cérebro não é apenas um conjunto de processos físicos, mas apresenta aspectos físicos e mentais. A experiência mental é uma experiência que acontece em primeira pessoa ao passo que os fenômenos físicos são acessíveis a uma terceira pessoa.
Como ensinar
Sequenciação:
- A posição monista sobre o problema mente-corpo
- Avaliação crítica a favor de e contra os argumentos que sustentam tanto a posição monista como a posição dualista.
Formas de abordagem, métodos e recursos:
Etapa de aprofundamento II: Leitura, resumos e notas de leitura pelos alunos, explicações pelo professor dos textos selecionados a favor da posição monista;
Etapa crítica: Avaliação das posições estudadas através do levantamento de contra-exemplos e da explicitação dos argumentos a favor de uma e outra posição.
RECURSOS:
a) Textos filosóficos a favor do monismo: (possibilidades para escolha)
- ESPINOSA. Ética, III, prop. 2- Escólio.Trad. Joaquim de Carvalho, Joaquim Ferreira Gomes, Antonio Simões. - São Paulo : Nova Cultural, 1989.
- DAMASIO, Antonio R. O erro de Descartes : emoção, razão e o cerebro humano. São Paulo : Companhia das Letras, 1996.
- DAMASIO, Antonio R. Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos. São Paulo : Companhia das Letras, 2004.
b) Para a discussão dos argumentos a favor de uma ou outra posição:
- NAGEL, T. “O problema mente cérebro”. Uma breve introdução à filosofia. Trad. Silvana Vieira. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
Como avaliar
Elaboração de um texto dissertativo onde o aluno exponha a sua posição em relação a uma das questões levantadas na etapa inicial, detalhada no item 4 da OP Corpo e Psiquismo I.
OP elaborada por Patrícia Kauark Leite
Orientação Pedagógica: A posição monista - Avaliação crítica do monismo e do dualismo
Currículo Básico Comum - Filosofia Ensino Médio
Autora: Patrícia Kauark Leite
Centro de Referência Virtual do Professor - SEE-MG / março 2009
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